Cinecartaz

Fernando Oliveira

Blade runner 2049

“Blade runner 2049”, tal como o filme de 1982, é uma reflexão sobre o esbatimento das fronteiras entre o humano e o artificial. Como seres biomecânicos, digitais ou virtuais ao integrarem aquilo que define o que é ser humano, a capacidade de sentir, se tornam em algo novo, tão fascinante como indistinto daquilo que é ser homem ou mulher. Mas são, também, filmes atravessados por histórias de amor tão intensas como trágicas. Neste filme há uma história de amor entre Joi (Ana De Armas, muito bela) e Joe (nome que é também uma prova desse amor, foi-lhe dado por Joi; a personagem interpretada por Ryan Gosling tem um nome tão mecânico como ele: K), um holograma e um andróide.
Há neste filme uma cena tão bela como triste: já depois da “morte” de Joi, enquanto caminha numa rua deserta, Joe é abordado por uma outra Joi gigante, projectada da parede de um edifício, publicidade ao produto que Joi também é; quando ela lhe diz as mesmas palavras que a sua Joi lhe dizia ao dizer-lhe que o amava. Esta cena sublinha o essencial da narrativa dos dois filmes: já nada separa o que é humano e o que é digital, Joi utiliza a sua programação para verbalizar um sentimento genuíno. Entre seres artificiais. Antes há outro momento lindíssimo quando Joi contrata um andróide, uma prostituta, para tornar física a sua paixão por Joe, quando a sua imagem holográfica se sobrepõe ao corpo do andróide, Joe toca neste mas vê Joi. Se aqui se quer espelhar os medos do nosso presente, a caminhada trágica para a desumanização das relações entre os humanos, não sei. Um futuro em que as relações entre máquinas serão mais intensas que as nossas. A nossa trágica vulnerabilidade descrita nesta troca.
A história contada em “Blade runner 2049” leva ao limite o fim dessa divisão entre o que humano e o que é artificial (são até muito poucas as personagens humanas deste filme, um filme que retrata como poucos aquilo que define o humanismo, tão desesperado que chega a doer). K é um polícia que captura ou destrói replicantes rebeldes e que descobre que houve uma criança que nasceu de Rachael, a mulher que amou e foi amada por Deckard no filme de 1982, uma esperança simbólica para todos os replicantes, que como todos os outro seres artificiais nesta sociedade distópica, são usados e abusados pelos humanos, e que querem apenas “ser” (até Luv que mesmo na sua cruel qualidade mecânica chora quando inflige o mal nos outros). Uma criança que cresceu e que é uma ameaça. A demanda de Joe balança entre a procura, a sua relação com Joi, e a certeza que vai adquirindo que ele foi essa criança. E embora o filme seja uma tragédia, acaba a voltar de forma feliz a “Blade runner”, Deckard encontra o fruto do seu amor por Rachael.
Denis Villeneuve depois do magnífico “Arrival” dá-nos mais um excelente filme sobre os conflitos do humano com o que lhe é estranho; onde as espantosas proezas técnicas não anulam a história Hampton Fancher, que tinha escrito o do filme de 1982, desta vez com a colaboração de Michael Greene, a assumpção de uma herança pesada resolvida de forma inteligente; onde os cenários deixam de ser apenas verticais, nocturnos, envolvidos por chuva constante, agora as cidades são intermináveis blocos sempre iguais, interrompidos pelos poucos arranha-céus que são as sedes das corporações, agora as cores são também os laranjas e os amarelos doentios, o nevoeiro cinzento, um mundo coberto pela poluição (é notável a fotografia de Roger Deakins). E gosto dos actores: Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Sylvia Hoeks e Ana De Armas.
Tal como o filme de Ridley Scott, não é um filme para amarmos incondicionalmente, mas é um filme bastante perturbante, um filme que gosta de contar uma história. Um filme com uma história triste, mas que nesta tristeza é também muito belo.

Publicada a 02-04-2021 por Fernando Oliveira