Cinecartaz

Fernando Oliveira

A Missão

Já quase não se fazem filmes assim: brutos na sua perversidade; alucinados nas suas formas e naquilo que contam; saber desenhar a escuridão que habita os personagens; confrontando-nos com a memória de sentires que vêm lá de trás no tempo, quando ver filmes era uma outra coisa, perto da vertigem; fora de moda, portanto. “The assignment”, de Walter Hill, feito em 2016; um realizador fora deste tempo pela forma “suja” como encena os seus filmes, e, por isso, cada vez mais raro; é um desses filmes. Um filme que mistura violência desmesurada com citações de Mary Shelley, Shakespeare e Poe; que não tem pudor de “mostrar”, que acredita que nós espectadores ainda conseguimos sentir esses estremecimentos a ver filmes destes. Afinal, ele é um realizador que ainda fala de Ford ou Walsh, quando fala de Cinema.
Frank Kitchen é um assassino profissional, quando mata o irmão de uma cirurgiã genial mas caída em desgraça, do tipo do cientista-louco dos filmes de antanho; a vingança dela é original: captura-o e muda-lhe o sexo. Frank Kitchen é agora uma mulher. Depois, a vingança passa a ser dela: Frank vai perseguir e assassinar os colaboradores da médica. Como no cinema de Hill as personagens são quase sempre figuras de estilo, não há tempo para a psicologia (enfim, nesta história até há…), o filme não se interessa muito com a “aprendizagem” que Frank tem de fazer sobre o seu corpo novo (… eu fiz a barba e mais algumas coisas), ele continua a ser um “homem” e um assassino. Há apenas a dor da descoberta, e aquele primeiro beijo titubeante à enfermeira.
E se a história é delirante, a forma como Hill a conta ainda o é mais, salta entre o passado e o presente, e dentro dos dois tempos; e usa e abusa de um grafismo estilizado, e dos maneirismos formais que lhe reconhecemos doutros filmes, levando o filme para uma imagética de Banda Desenhada (sublinhada pela utilização de imagens desenhadas), que torna as ambiências quase irreais, fora deste tempo (como em “Streets of fire”, ainda o seu melhor filme). Com Michelle Rodriguez e Sigourney Weaver.
Vacilo entre bizarro e assombroso para o definir – um muito bom filme, de certeza.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 09-04-2020 por Fernando Oliveira