Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Amor eterno

Em “Café Sociedade”, Woody Allen regressa a um dos seus temas favoritos: a veracidade das emoções. O que é o amor? Pode gostar-se de duas pessoas ao mesmo tempo? Viver com uma e pensar na outra é traição? E o amor, verdadeiro, é eterno?
Para confirmar a sua conhecida obsessão pela veracidade emocional das personagens, o que quase as leva, por vezes, ao campo da psicopatia, desta vez Woody Allen inventou uma história centrada no mundo da frivolidade: a alta sociedade dos dois lados da América, onde a vaidade e a vacuidade une a luz de Hollywood à escuridão politico-financeira de Nova Iorque. É desta cidade que sai Bobby, um jovem cheio de ambições, em direcção a Los Angeles, onde o seu tio Phil é um dos principais agentes de actores e realizadores. Apesar de alguma resistência deste, acaba por trabalhar com ele, onde conhece Vonnie e por quem se apaixona perdidamente. Ela parece corresponder-lhe, partilhando sonhos, desejos, opiniões, até ao momento em que descobre que ela, afinal, é a amante do tio e que, no momento da escolha, prefere este a Bobby. Destroçado, regressa a Nova Iorque onde vai trabalha com outro tio, um gangster, acabando a gerir o seu night-club, o “Café Society” e aproveitando os contactos obtidos em Hollywood para o tornar um enorme sucesso. Claro que, um dia, “of all the gin joints in all the towns in all the world, she walks into mine”…

O amor entre Bobby e Vonnie é, evidentemente, o eixo sobre que todo o filme gira. Nós sabemos que ele é puro, uma verdadeira e perfeita união de almas. Num local apelidado de “inferno na terra”, eles são dois anjos verdadeiros na cidade deles. Sonham com uma vida simples, honesta, olhando um para o outro, vivendo um para o outro. Mas Vonnie não consegue ultrapassar a razão que a levou da rural Oklahoma para a Califórnia: ser famosa e rica. E essa oportunidade tem-na no patrão, Phil. E entre o salto no escuro onde apenas a espera o conforto da paixão e o voo em primeira classe que o dinheiro e poder do tio de Bobby lhe podem proporcionar, Vonnie não hesita e casa-se com este. As vidas continuaram, o tempo passou mas quando se reencontram, qual Ilse e Rick na “cidade branca” de Marrocos, bastou uma simples troca de olhares para perceberem que a chama continuava forte.
Esta dessintonia entre o que se sente e o que se faz, entre o que se é e o que se parece, entre a forma e conteúdo é um clássico em Woody Allen, como se comprova ao olhar para a sua longa lista de filmes. E há muito disso, aqui em “Café Sociedade”.

Woody Allen escolheu Jesse Eisenberg para dar corpo a Bobby, que até parece um alter-ego do realizador ao mostrar-se algo trapalhão com as mulheres, mal vestido, um ar geek, disparando humor de auto-comiseração e problemas de inserção em todo o lado onde entra… Mas isso não o impede de tentar ser feliz. O que ele faz com determinação e inteligência, mesmo ao nível emocional. Allen deve ter ficado impressionado com a brilhante prestação de Eisenberg no papel doutro inadaptado, o de Mark Zuckerberg, em “A Rede Social” e acertou. Jesse está magnífico, num papel complicado, onde extâse e desilusão andam muito próximos. Mas já errou completamente com a escolha da pior actriz das últimas décadas, a insossa Kristen Stewart, que por ali anda a arrastar-se com a sua cara inexpressiva. Era difícil pior escolha, mas esta bate-se por tal título com Steve Carell no papel de Phil. O homem não tem piada quando deve ter, imagine-se quando é para levar a sério, como deveria ser em “Café Sociedade”. É que não é fácil a transição da comédia para o drama e não é Tom Hanks quem quer…

Woody Allen continua a ser um mestre na gestão de actores, nos timings emocionais e, claro, nos argumentos. Mas aqui teve uma ajuda preciosa ao nível da fotografia, quer em cenas de interior, à luz de velas, quer as de exteriores, onde Nova Iorque não aparecia tão bela desde “Manhattan”. E isso deve-se a Vittorio Storaro, um nome que dispensa apresentações, vencedor de incontáveis prémios, entre eles três Óscares, em especial o que lhe foi entregue pelo seu extraordinário e inesquecível trabalho em “O Último Imperador”. Uma equipa de luxo, mas só de quatro estrelas, exclusivamente por via da escolha desastrada de dois “actores”.

Publicada a 23-10-2016 por Pedro Brás Marques