Cinecartaz

Fernando Oliveira

Boi neon

Há uma tenuidade notável entre as rotinas dos personagens, entre a sua racionalidade, e a bestialidade da actividade onde trabalham; este esbatimento confronta-se depois com a feeria kitsch das noites de festa. “Boi néon”, as duas palavras não definem uma associação, mas quase um conflito. As personagens trabalham nos bastidores das Vaquejadas – um boi é solto num recinto, dois cavaleiros “prendem-no” entre eles, e um deles tenta derrubar o touro segurando-o pelo rabo, “apoiando-se” na força do cavalo – são eles que conduzem os touros de terra em terra no Nordeste brasileiro, e os preparam antes de entrarem no recinto. Uma mulher conduz o camião, os homens viajam com os bois: sublinha-se esse conflito, eles vivem com e como os bois, e depois há os bailes onde o forró se mistura com música electrónica, as danças mais ou menos eróticas, os leilões de cavalos.
Galega é a mulher que conduz o camião, com ela viaja a filha Cacá; Iremar é um dos boieiros que sonha em ser estilista. Nos intervalos do trabalho costura roupa para Galega usar nos espectáculos eróticos, onde ela tapa a cara com uma enorme máscara de cavalo. Mas Gabriel Mascaro deixa os sonhos daquelas personagens sempre ao longe, deixa-os “tocar” neles mas puxa-os sempre para a sua realidade. Estão à margem da modernidade e da prosperidade que por vezes o realizador nos mostra. Mascaro fez documentários antes de filmar ficção, e esse olhar, de documentar, está sempre presente neste filme (aqueles movimentos de câmara que “seguem” a acção lateralmente). Mesmo na cena felliniana do filme: quando Iremar procura bocados de manequins no campo de lama coberto de papéis coloridos.
E depois há a sensualidade e a sexualidade que encharca todo o filme. Primeiro a sensualidade naquele momento muito bonito quando Iremar tira as medidas a Galega na cabine do camião; ou quando ela compra cuecas; ou quando Iremar desenha a roupa que quer costurar para Galega numa fotografia de uma mulher nua numa revista erótica de Zé, outro dos membros daquela “família” tão funcional e disfuncional como qualquer outra. E a sexualidade que é trazida por dois personagens que invadem aquela “família”: um boieiro que substitui Zé, e uma vendedora de perfumes, Geise, que também é segurança nocturna numa fábrica de roupa. Se a primeira quando o boeiro faz sexo oral a Galega é filmada de longe, a que acontece na visita nocturna que Iremar faz a Geise na fábrica é muito bela na sua quase total explicitude. O sonho de Iremar está ali, a cena está filmada de forma a que existe um odor a pudor na sua clareza, até porque Geise está no final da gravidez; na manhã seguinte Iremar está no curral dos bois, e muge e bufa para eles. Fim.
É um filme sobre corpos em “movimento”: homens e mulheres, mas também os cavalos e os bois. Realismo cinematográfico, é verdade, mas que parece suspenso por este movimento.
Um belo filme, tanto por aquilo que nos mostra, como pela estranheza que emana daquela história, daquela gente.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 24-10-2021 por Fernando Oliveira