Cinecartaz

Pedro Brás Marques

A fronteira da dignidade

Não é comum um filme abordar assuntos “aborrecidos” como o trabalho, os direitos do trabalhador e, principalmente, questões éticas com ele relacionadas. Mas “A Lei do Mercado” fala disso, de forma séria, inteligente e estimulante.
O filme assinado por Stéphane Brizé conta a história dum trabalhador de meia-idade, que se vê subitamente desempregado. Thierry é um homem simples, mas vertical e íntegro, a que nem as maiores dificuldades fazem vergar, como se comprova quando, apesar das suas enormes dificuldades financeiras, recusa vender a sua roulotte por um preço que entendeu ser abusivo. A sua natureza é a dum resistente: procura alternativas, vai ao centro de emprego, frequenta cursos de especialização, acorre a entrevistas onde nunca mente, esgota todas as chances. Finalmente, consegue um emprego como segurança duma grande superfície. No início, a sua função resumia-se a fazer a ronda mas, depois, é colocado na secção de vigilância, onde visiona não só os clientes como os próprios colegas de trabalho, em especial os funcionários das caixas, alguns acabando acusados de pequenos roubos causadores de grandes problemas: despedimento. Thierry sente isto como uma violação aos seus valores, provocando uma luta interior, entre a necessidade e a dignidade.
Este filme recebeu no mundo anglo-saxónico um título extremamente feliz: “The Measure of a Man”, a “Medida dum Homem”. Efectivamente, qual é? Numa sociedade materialista, onde o homem é visto como meramente utilitário e descartável, onde é que se traça a fronteira entre a subsistência material e a subsistência da moral? Qual é a medida de cada um? Deve um homem, um trabalhador, aguentar tudo, mesmo que o procedimento empresarial pareça legal, ou a sua dignidade obriga a traçar uma linha para além da qual a recompensa já não se justifica?
Stéphane Brizé faz evoluir a acção de forma a que o espectador se aperceba não só da necessidade pessoal e familiar de Thierry, como dos sucessivos esforços para arranjar emprego. Ou seja, antes do desenlace da trama, o espectador tem a oportunidade de formar uma opinião muito concreta de quem é Thierry, dos princípios que defende, mesmo que isso decorra mais das suas acções do que das palavras. É claro que isto resulta porque Vincent Lindon tem uma composição soberba, de uma intensidade brutal, mesmo que muitas vezes se alimente apenas de ensurdecedores silêncios.

Publicada a 03-05-2016 por Pedro Brás Marques