Cinecartaz

JOSÉ MIGUEL COSTA

3 estrelas

Um poderoso (e, em simultâneo, "discreto" e não panfletário) drama social e humanista (tão do agrado do cinema realista francês), que constitui uma espécie de "retalhos da vida de um desempregado". E esta designação pode ser "levada à risca", uma vez que a autêntica via sacra do protagonista (um desempregado de longa duração, não qualificado, que já ultrapassou a barreira dos 50 anos, e cujo subsídio desemprego está a findar) nos é apresentada em "quadros independentes" (captados num registo de cariz quase documental - constituindo um verdadeiro documento sociológico). Através destes vamos testemunhando toda uma série de rituais impostos por uma desumanizada sociedade que se rege pela lógica do capitalismo neoliberal (e que vão, por ex., desde a obrigatoriedade de frequentar inapropriados cursos de formação com o objectivo único de "encher chouriços" - e os bolsos das empresas que os ministram-; às humilhantes renegociações dos empréstimos anteriormente contraídos junto das parasitas entidades bancárias; passando pelas inúmeras tentativas dos "piegas apegados à sua zona de conforto" venderem ao desbarato os despojos do tempo em que "viveram acima das suas possibilidades"). E o realizador fá-lo com um laconismo distanciado e um acutilante olhar clínico, socorrendo-se para o efeito de planos fixos fechados nos rostos dos intervenientes (de modo, a não perder qualquer "piscar de olhos").
Claro que os louros têm que ser divididos com Stéphane Brize (aliás, para sermos inteiramente justos, ele é o "corpo e alma" deste filme"), cuja excelente interpretação lhe valeu o prémio de melhor actor no festival de Cannes (bem como um César).

Publicada a 29-04-2016 por JOSÉ MIGUEL COSTA