Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Um filme para ler

Quentin Tarantino é um caso à parte na História do Cinema. Ninguém, como ele, consegue oferecer uma obra onde se misturam, em explosiva harmonia, humor negro, referências cinematográficas, diálogos de nível literário, fotografia irrepreensível, entre muitos outros ingredientes como acontece neste "The Hateful Eight/Os Oito Odiados", um filme que é um verdadeiro deleite visual.
Apesar de tudo se passar num Wyoming adormecido sob um manto de neve, a verdade é que as oito personagens do título mais parecem diabos acabados de sair do Inferno. Basicamente tudo se passa em dois espaços. O primeiro, dentro duma carruagem, onde viajam dois caçadores de prémios, interpretados por Kurt Russell e Samuel L Jackson, sendo que o primeiro tem literalmente atrelada a si uma criminosa, a que Jennifer Jason Leigh dá vida. Pelo caminho ainda dão boleia a um candidato a sheriff, todos eles se dirigindo a uma estalagem, a “Minnie's Haberdashery”. Ali chegados, a acção passa quase exclusivamente a centrar-se no grande salão onde já se encontram as personagens restantes: um mexicano que se diz encarregado da estalagem, um carrasco com tiques dandy, um pistoleiro solitário e um amargurado general sulista. Como vai sendo revelado lentamente, cada um deles acaba por ter prévia relação com um ou outro, assim se explicando o ódio do título…
Mas há muito, muito mais. Aliás, o enredo é tão vasto, embora nada complexo, que seria impossível reproduzi-lo em menos do que meia-dúzia de páginas. E esse é o principal trunfo deste “The Hateful Eight”. São quase três horas de diálogos cruzados, umas vezes longos e narrativos, outros curtos e venenosos, mas sempre vivos e a acrescentarem degraus para o desenlace final. E Tarantino não se fica por aqui. Quase tudo é evocativo a começar logo pelo título, a brincar com o clássico “Os Sete Magníficos” de John Sturges; com um “lettering” a homenagear os “western spaghetti”, alguns dos quais musicados precisamente por Ennio Morricone, eleito para aqui repetir o feito; o “gore” sádico e excessivo do mestre Sam Peckinpah; o ambiente peculiar de termos as personagens presas pela neve e que têm de desvendar um assassinato como Sidney Lumet fez em “Crime do Expresso do Oriente” baseado na obra de Agatha Christie, sendo Jackson um quase Poirot e Walton Goggins um quase capitão Hastings… Enfim, toda uma viagem dentro de outra viagem.
Mas a mestria de Tarantino está em não só em dar de novo, como também em recriar, baralhar conceitos e até brincar com tudo isto, numa atitude subversiva e irreverente, que o torna num verdadeiro caso no cinema contemporâneo. Não há, aqui, cedência ao politicamente correcto: fala-se de racismo, de misoginia e de vingança como se estes fossem os verdadeiros motores da Humanidade, em oposição à hipocrisia beata que por aí se vende. Este é um mundo de duros, de homens e mulheres que sabem o que querem, como querem e têm as suas próprias leis. Mas será que esse mundo existe? Ou tudo o que ouvimos da boca das personagens aconteceu mesmo ou aquelas histórias são todas mentiras, já que a mentira é mais uma das leis dos fora-da-lei?
“The Hateful Eight” é um belíssimo filme, divertido, inteligente e com um ritmo vertiginoso, apesar do aparente paradoxo de isso resultar, essencialmente, dos fabulosos diálogos que Tarantino escreveu. Depois, há o recurso físico ao filme de 70mm, normalmente usado para retratar grandes espaços, mas que no jogo de Tarantino é quase só usado em cenas de interiores, dando a impressão que a sala da estalagem é um salão enorme, onde as personagens se encontram a considerável distância umas das outras, quando a verdade é que o espaço é reduzido, como se aquilata pelo exterior do edifício. E não podemos esquecer os actores, alguns que são já da família, “a gente de Tarantino”, parafraseando João Bénard da Costa e a sua “Gente de Ford”, referindo-se aos actores predilectos do grande realizador do Oeste, John Ford. Efectivamente, a Samuel L. Jackson, a Michael Madsen e a Tim Roth vieram juntar-se agora uma diabólica Jenniffer Jason Leigh e um Kurt Russell com tiques de John Wayne. Todos juntos, formam uma verdadeira família, num filme que não é, de todo, para toda a família.

Publicada a 09-02-2016 por Pedro Brás Marques