Cinecartaz

Pedro Vardasca

Hora de mudar?

Não sabemos quantos mais filmes restarão até que Tarantino dê por encerrada a sua atividade, mas é certo que as gerações futuras reconhecerão, sem margem de erro, o Tarantino touch e o adjetivo correspondente terá até direito a uso corrente, prerrogativa a que só aspiram figuras muito especiais. Quentin tem feito por isso, construindo um acervo que revisita os géneros que fizeram o cinema norte-americano – os filmes de gangsters, de guerra e de ação, o western e até um que traz à luz do dia a memória de um estilo marcado pela identidade étnica, o blaxploitation -, dispersão que nunca apaga as especificidades do realizador.

Por isso, é fácil identificar um Tarantino no meio de uma enxurrada de filmes e Os Oito Odiados são igualmente feitos da matéria-prima que singulariza o cinema do norte-americano. Resta agora saber das qualidades do filme, jogando para razoavelmente longe os preconceitos, favoráveis ou desconfiados, acerca do trabalho começado há mais de vinte anos por este antigo funcionário de um videoclube dos arredores de Los Angeles.

Do sul escaldante pré-Guerra de Secessão de Django Libertado passamos para o norte gelado pós-guerra de Os Oito Odiados, com o mesmo combustível ao serviço de ambos, a convivência multirracial e de género nos Estados Unidos da América. Para que o sangue vá fervendo, Tarantino arruma as suas personagens num entreposto comercial, ideia já explorada há sessenta e cinco anos por Henry Hathaway no ótimo “O Correio do Inferno”. Avança o filme e instala-se uma sugestão de mistério policiário, um quase jogo de salão conforme fixado nos romances de Agatha Christie. Sem nenhuma mente especialmente dedutiva presente, acabam por ser as armas a ter a palavra final, com um previsível mar de sangue a inundar a tela.

Como é hábito, Tarantino esculpe com notável habilidade as suas personagens, o que as faz perdurar na memória de quem acompanha o seu cinema, mas o que agora interessa verdadeiramente é a sensação de previsibilidade que, filme após filme, se vai instalando incomodamente naqueles que procuram algo mais. Na verdade, será um exagero afirmar que o realizador optou por fazer sempre o mesmo filme, mas não será errado sugerir que Quentin se vai assemelhando, cada vez mais, àqueles grupos Pop/Rock que preferem tocar, até à eternidade, os hits que, um dia, os fizeram ser amados pela multidão. Por isso, talvez seja o momento deste indesmentível talento arrepiar caminho e rumar a novas paragens. Ainda vai muito a tempo de, verdadeiramente, nos surpreender.

Publicada a 13-02-2016 por Pedro Vardasca