Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Intolerância

A história de Carol, tal como a de Dalton Trumbo, retratadas nos filmes homónimos, têm em comum o sectarismo e o fanatismo que atravessou a hipócrita sociedade americana dos anos 50.
Em “Carol”, a intolerância está relacionada com a autodeterminação sexual. A personagem principal é uma mulher casada, mãe, autónoma e auto-confiante, cujo único erro foi ser lésbica numa sociedade e num tempo em que isso era o equivalente a ser leproso na Idade Média. Carol apaixona-se por uma empregada de um grande armazém e, juntas, vivem a paixão de uma vida. Infelizmente, o seu marido não pensa da mesma forma e tudo tenta para lhe retirar a custódia da criança, o que prejudica gravemente o relacionamento entre as duas mulheres.
Carol é maravilhosamente interpretada por uma Cate Blanchett poderosa e lindíssima. Uma loira vestida de vermelho é uma imagem que dispensa simbolismos, mas a forma como ela tece a sua teia à volta da enganadoramente inocente Rooney Mara, que lhe faz igual, é duma intencionalidade subtil e aveludada, só ao alcance de grande actrizes. Mas o filme tem outro enorme trunfo: a realização de Todd Haynes, no que será, provavelmente, o seu melhor filme. Planos cuidados, uma imaculada reconstrução de época e uma fotografia assombrosa, fazem deste “Carol” um filme com várias camadas notáveis de apreciação.
Foram tempos complicados estes, em que cidadãos eram perseguidos não só pelos seus semelhantes como pelo próprio Estado. Conceitos como liberdade de opinião ou autodeterminação eram impensáveis há seis décadas. Muito mudou desde então, mas o caminho está longe de estar percorrido. E é precisamente esse o enorme contributo de filmes como “Trumbo” e “Carol” que nos alertam para os totalitarismos, muitas vezes coloridos com cores enganadoras, e o quanto eles são um verdadeiro atentado ao Estado de Direito e ao conceito que hoje damos, de forma precipitada, por plenamente adquirido, a Liberdade.

Publicada a 28-02-2016 por Pedro Brás Marques