Cinecartaz

Fernando Oliveira

Carol

TEXTO ESCRITO NA ALTURA DA ESTREIA. SEM ALTERAÇÕES:
“Carol” é um filme de uma beleza avassaladora, tão bonito que nos embala numa espécie de suspensão do sentir, um filme tão em estado de graça, que nos dá pena abandoná-lo quando o genérico final toma conta da tela.
Todd Haynes encena aqui uma magnífica arquitectura formal e narrativa num filme com um argumento adaptado de “O preço do sal”, uma novela editada em 1952 e escrita por Patricia Highsmith com o pseudónimo de Claire Morgan – é um dos meus livros preferidos, e aquele ao qual eu mais vezes volto, tanto que conheço a história quase ao pormenor, e isto apenas me deu o enorme gozo de confrontar a minha encenação mental do descrito no livro com a ideia do realizador sobre as mesmas cenas – o primeiro dos seus livros onde o seu lesbianismo vem à tona, reflectindo-se na personagem de Thérèse, tão cheia de vida como de dúvidas. Deixamos de lado o livro…
O filme conta o drama de duas mulheres que se apaixonam uma pela outra, e que descobrem, citando uma entrevista a Cate Blanchett, que não podem dar um nome a esse amor (Thérèse, mais do que Carol, vive este amor num estado de incerteza e ansiedade, ela nem o sabe descrever, o seu medo é este amor não ser correspondido - parafraseando uma entrevista ao realizador). O conservadorismo das regras sociais da América do inicio dos anos 50 tornam-no em algo interdito, que nem pode ser mencionado. Uma história de uma paixão proibida…
Haynes consegue neste filme um equilíbrio perfeito entre o seu amor quase fetichista pelos exacerbados dramas realizados por Douglas Sirk nos anos 50 (que aqui se esbate na fotografia invernosa, cinzenta, longe dos cromatismos esplendorosos dos melodramas do mestre, ou do seu “Longe do paraíso”), e uma história onde os mais subtis detalhes simbolizam o que é mais indefinível: o amor como aquilo que é o mais íntimo de cada um.
O formalismo rigoroso de Haynes vê-se na espantosa mise-en-scène: movimentos circulares e oblíquos quase sempre opressivos; Carol e Thérèse filmadas à distância por trás de janelas, vidraças, balcões, por entre os figurantes, definindo a solidão intrínseca a todos os que amam; em contraponto com os planos fechados sobre os olhares e os gestos que tudo dizem sobre o que as duas mulheres sentem uma pela outra - há um outro filme de amores entre duas mulheres (também muito bonito: “Imagine me & you”) em que se discute se o amor é algo que cresce com o passar do tempo, ou que acontece logo no primeiro olhar (ver também “A vida de Adéle, capítulos 1 e 2”); atente-se neste filme à primeira troca de olhares entre Thérèse e Carol, uma cena sublime onde tudo fica logo entendido; a prodigiosa fotografia de Ed Lachman, a sublinhar os estados de alma das personagens; a perfeita reconstituição da Nova Iorque dos anos 50. O peso deste formalismo como método de trabalho é no entanto amaciado pelo fulgor que Cate Blanchett e Rooney Mara dão às suas personagens, como aquilo que lhes é mais íntimo, a paixão, as dúvidas, o desejo, a angústia, e sobretudo os mistérios, nos é mostrado de uma forma absolutamente genial. Haynes é um extraordinário director de actrizes.
O livro é considerado como o primeiro em que uma história de amor entre duas mulheres tem um final feliz. Sem querer contar nada, acho que é um dos finais mais belos de todas as histórias que li, vi ou ouvi. No filme é quase tão perfeito como no livro.
Dificilmente haverá um filme melhor este ano. Sublime.
"em 2oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 29-03-2020 por Fernando Oliveira