Cinecartaz

Manuel da Cerveira Pinto

A "mediania" de Iñarritú

A mediania de Iñarritu Confesso que os primeiros filmes que vi de Iñarritú me marcaram bastante. Ficou-me dele uma imagem de realizador sério, intenso, sem contemplações nem concessões, duro quando havia que ser duro e a caminhar “no limite” na abordagem dos temas sociais e humanos. Penso que o primeiro que vi foi o já notável “21 gramas”, ao qual se seguiu o magnífico “Babel” e que me levaram a ter curiosidade por outros filmes dele, tendo visto então “Amor cão”. Instalou-se então uma aura de realizador notável e impoluto que segui com interesse crescente até ver o lamentavelmente triste “Biutiful”…que me decepcionou deveras. Desfez-se a aura quase mítica e já não tive sequer coragem de ver o seguinte “Birdman”. A visualização do “thrailer” desfez qualquer curiosidade ainda remanescente. É então que surge este “O renascido” e a curiosidade volta a reacender-se. O tema, a época e até o facto de ser protagonizado pelo (cada vez mais) brilhante Leonardo DiCaprio levaram a isso. No entanto, ainda assim, o filme fica aquém do expectável. A realização é interessante, mas sem rasgo. Nem as paisagens magníficas conseguem tirar o filme de uma mediania confrangedora. A história, baseada em factos reais, de sobrevivência e vingança é um exagero de “torturas” e sofrimento, num misto de drama e “hiper-realismo” que parecem ser feitos à medida do gosto (e dos Óscares) de Hollywood… O maior interesse do filme que reside na ambivalência da relação/oposição entre homem e natureza, em que o sagrado parece estar sempre presente num mundo completamente selvagem e cruel, não chega a ser suficientemente credível nem devidamente explorado, chegando a ser, inclusive, por vezes ridícula a forma como o realizador intenta de tornar essa vertente mais presente, nomeadamente nas “aparições” da figura amada que vão surgindo ao protagonista. À história, que tinha todos os ingredientes para poder ser apelativa, falta subtileza e emoção, a qual é substituída por uma tensão, gerada pelo rol infindável de dificuldades que o personagem principal tem que ultrapassar e nem mesmo DiCaprio salva o filme desta mediania. Um actor pleno, em fase de maturidade, de escola teatral e clássica, quase não fala, nem contracena, o que nitidamente prejudica a sua (ainda assim notável) prestação. Não é o papel da vida dele, porque já o vimos fazer melhor, mas seguramente é um papel “à Hollywood” e não nos surpreenderá se for este o filme que lhe dará, finalmente, um óscar. Aquele que era um realizador intenso, no limite, afirmativo e agitador de “consciências”, com preocupações sociais e de classe, caminha agora isento, na “medianiazinha” inócua, tranquila e confortável de Holywood. Já pode levar o óscar… Cerveira Pinto 24-02-2016

Publicada a 26-02-2016 por Manuel da Cerveira Pinto