Cinecartaz

Fernando Oliveira

Cavaleiro de copas

Visualmente é um filme muito belo, mas…
Mas Terrence Malick perdeu-se nos seus sonhos e no seu misticismo. Perdeu-se ele, e faz perdermo-nos a nós.
Rick é, presumimos nós, um argumentista anestesiado pela vida; deambula, ele e a câmara de Malick, por belíssimos cenários naturais e urbanos. Numa Los Angeles quase deserta, mas também em Las Vegas, recorda a sua vida: a solidão, mas também muitas festas em mansões luxuosas, com muitas mulheres esbeltas, em reuniões; com amantes ocasionais, a mulher, o pai e um irmão; a memória de outro irmão que morreu, a amante que amou e que engravidou.
Uma montagem rápida, fragmentada em pedaços de cena, colados de forma brusca, a imagem deformada em fuga ao real, a fotografia de Emmanuel Lubezki é espantosa; com a personagem principal ao mesmo tempo no centro da acção, mas parecendo que é um simples espectador da sua vida – a câmara filma muitas vezes à sua frente, e é depois “ultrapassada” por ele. Um personagem que questiona o sentido da vida, e que interpela e é interpelado pela presença do divino. Como é costume em Malick, Deus (?) é tudo e tudo é Deus (?). Embrenhado na ideia do destino: o cavaleiro de copas é uma carta de Tarot – há no inicio do filme uma quase cena em que Rick visita uma cartomante – e o filme é dividido em capítulos titulados por outras cartas que definem outros personagens. Há uma confrontação entre a promessa desses encontros, e o que o destino reservou ao presente da personagem.
Malick filma como sempre de uma forma muito própria, a câmara é também uma personagem que dialoga com as outras, uma presença “divina”; o filme não deixa de nos tocar; mas parece-me ser um Cinema esgotado, quase que não há uma narrativa, e definitivamente não há personagens. É um filme belo, até muito belo, mas mais do que um filme de silhuetas, é quase uma silhueta de filme.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 07-03-2021 por Fernando Oliveira