Cinecartaz

Pedro Vardasca

Hollywood, a antropofágica

Começa “A Queda de Wall Street” e rapidamente se instala um tremendo incómodo nos espectadores mais vigilantes, naqueles que conhecem minimamente o cataclismo decorrente da crise financeira de 2008. Os minutos vão passando e o sentimento que cedo despontara vai-se agudizando, uma erva daninha a alastrar na sensibilidade, uma sombra que só terá um fim no exato momento em que o filme se encerra. Pelo meio, alguns dos presentes riem, o que não será, com toda a certeza, culpa dos próprios, pois A Queda de Wall Street é um exímio travesti cinematográfico, bem recheado de estrelas faiscantes do universo de Hollywood, um produto de entretenimento, que, neste caso, usa uma tremenda tragédia, como noutros utiliza romances medíocres ou historietas de embalar.

O filme aborda alguns factos adstritos à derrocada do sistema financeiro norte-americano em 2008, catástrofe com ondas de choque à escala planetária. Para contarem a história de meia-dúzia de rufias clarividentes do mundo da finança, os ideólogos da obra optaram por uma montagem e um ritmo modelados na produção de videoclips, tudo devidamente acompanhado com um desregramento verbal de natureza pedagógica, para tal utilizando o jargão dos iluminados jogadores que povoam este estranho mundo do dinheiro.

A cobiça dos rufias, ainda que encaixilhada pela inteligência que adivinhou o abismo que outros ajudaram a criar, não deixa de ser desprezível, embora o argumento sublinhe os traços humanos destes escroques – a personagem de Bale gosta de ouvir diversas variantes de Heavy Metal, a de Pitt é uma espécie de guru arrependido da causa financeira, entretanto convertido à ecologia, e a de Steve Carell apresenta problemas psicológicos. Em contrapartida, o sofrimento humano provocado pelo pensamento doentio que comanda este universo é apenas sugerido como um ruído longínquo, um clamor indistinto de um outro tipo de cobiça, aquele que resultou do martelamento do sonho americano na disformidade mais atroz.

Filma-se, assim, a escuridão em tom prazenteiro, com um punhado de pacholas em busca do El Dorado, caminho que percorrem com a ligeireza de quem bebe um copo de água, mesmo que, pelo caminho, tenham que desfazer o direito a respirar de uma boa porção da Humanidade. Capta-se a desgraça como um passeio ao campo que corre inesperadamente mal e, se calhar, alguns incautos ainda são capazes de desculpar parte desta gente intragável. Neste filme imoral, Hollywood canibaliza o próprio mundo que lhe dá de comer. E, por incrível que pareça, os aplausos têm sido incessantes.

Publicada a 14-02-2016 por Pedro Vardasca