O filme aborda alguns factos adstritos à derrocada do sistema financeiro norte-americano em 2008, catástrofe com ondas de choque à escala planetária. Para contarem a história de meia-dúzia de rufias clarividentes do mundo da finança, os ideólogos da obra optaram por uma montagem e um ritmo modelados na produção de videoclips, tudo devidamente acompanhado com um desregramento verbal de natureza pedagógica, para tal utilizando o jargão dos iluminados jogadores que povoam este estranho mundo do dinheiro.
A cobiça dos rufias, ainda que encaixilhada pela inteligência que adivinhou o abismo que outros ajudaram a criar, não deixa de ser desprezível, embora o argumento sublinhe os traços humanos destes escroques – a personagem de Bale gosta de ouvir diversas variantes de Heavy Metal, a de Pitt é uma espécie de guru arrependido da causa financeira, entretanto convertido à ecologia, e a de Steve Carell apresenta problemas psicológicos. Em contrapartida, o sofrimento humano provocado pelo pensamento doentio que comanda este universo é apenas sugerido como um ruído longínquo, um clamor indistinto de um outro tipo de cobiça, aquele que resultou do martelamento do sonho americano na disformidade mais atroz.
Filma-se, assim, a escuridão em tom prazenteiro, com um punhado de pacholas em busca do El Dorado, caminho que percorrem com a ligeireza de quem bebe um copo de água, mesmo que, pelo caminho, tenham que desfazer o direito a respirar de uma boa porção da Humanidade. Capta-se a desgraça como um passeio ao campo que corre inesperadamente mal e, se calhar, alguns incautos ainda são capazes de desculpar parte desta gente intragável. Neste filme imoral, Hollywood canibaliza o próprio mundo que lhe dá de comer. E, por incrível que pareça, os aplausos têm sido incessantes.