Cinecartaz

António Araújo

Professor Spielberg

Tal como o anterior “Lincoln”, “A Ponte dos Espiões" parece à partida uma lição de história do professor Spielberg, mas o resultado, como naquele, anda longe de ser maçudo ou moralista. Com uma fotografia visualmente arrebatadora de Janusz Kaminsky, uma banda sonora discreta de Thomas Newman, em substituição do colaborador perene John Williams, e interpretações do mais alto nível de Tom Hanks e especialmente Mark Rylance, no papel do espião Rudolf Abel, Spielberg encena habilmente o argumento que, com o polimento dos Coen, não só traz à superfície o humor inerente aos procedimentos como nos confronta com temáticas que acabam por ser tão actuais hoje como o eram naquele tempo que nos parece tão distante apesar dos50 anos apenas que nos separam.

Os conflitos de agora são mais complexos do que os dias da Guerra Fria. As ameaças são mais indistintas, insidiosas e menos identificáveis. Mas o que define a nossa humanidade deveria ser intemporal. Como encaramos o Outro? Como tratamos o inimigo? Será que para defendermos a nossa liberdade estamos dispostos a atropelar os valores que a definem? Estas são questões de fundo colocadas por uma narrativa que nos faz acompanhar o surrealismo do processo negocial e do diálogo críptico que encobre as relações diplomáticas entre nações à beira de um ataque de nervos. Vidas na corda-bamba do capricho político e dos egos do poder. Donovan aparece como um elemento neutro que representa os valores que os outros estão dispostos a ignorar e, metido no caldeirão de Berlim de Leste por alturas da construção do muro de Berlim, tem o pragmatismo de quem apenas quer ir para casa, deitar-se na cama e curar a constipação que o aflige.

Pode-se apontar que Donovan não tem arco narrativo e tenho de reconhecer que é verdade, mas é a sua integridade que serve de âncora ao desfecho da narrativa. É a sua integridade que é reconhecida pelo estóico Abel que, sem nunca trair o seu país, estabelece uma relação com Donovan que ultrapassa fronteiras e que, na paranóia da época lhe providencia um desfecho ambíguo e incerto. A direcção de Spielberg é, neste ponto fulcral: há uma dualidade e um jogo de reflexos entre as duas potências em confronto que demonstra não haver lados certos ou errados. Em ambos os casos o serviço prestado ao país é resultado de grande sacrifício pessoal. Demonstra também uma segurança no tratamento temático que evita a lição moral ou o patriotismo, apesar de esta ser uma história com um americano no principal papel.

Só o tempo dirá onde aterra “A Ponte dos Espiões” na filmografia de Spielberg, mas este é um cineasta um plena forma. Com uma linguagem popular e apelativa continua a encontrar histórias cativantes para contar com uma segurança que faz a arte de filmar parecer fácil e que, pelo caminho, nos faz vibrar com histórias do passado que nos fazem questionar o mundo que nos rodeia no presente.

António Araújo
www.segundotake.com

Publicada a 01-12-2015 por António Araújo