Cinecartaz

JOSÉ MIGUEL COSTA

3 estrelas

Depois de "24 City" e "China - Um Toque de Pecado" (dois dos meus filmes favoritos de 2008 e 2013, respectivamente), o mestre Jia Zhang-Ke (pertencente à designada 6ª geração do cinema chinês) regressa com o tépido "Se As Montanhas Se Afastam" (uma espécie de alegoria em formato de romance), através do qual volta a mergulhar num dos seus temas fetiche - as idiossincrasias da capitalista China contemporânea, em processo de vertiginosa despersonalização cultural e de perda de identidade/"memória", por incapacidade/"desinteresse bimbo" em conciliar a modernidade com a tradição milenar.

Não é uma das suas melhores obras, todavia, continua a encantar com a sua extrema subtileza melancólica, bem como a ter a capacidade de efectuar, de modo indirecto, uma feroz crítica ao modelo politico/económico/social vigente, fazendo-se valer para o efeito ("apenas") das emoções dos seus personagens. Neste caso relatando-nos os episódios de vida de uma mulher separada do seu filho, em três períodos distintos (1999 - simbolísmo da mudança do milénio? -, 2014 e 2025), possivelmente, com o objectivo (principal) de dissertar sofre o futuro (decadente) da sua mãe-pátria (a titulo de curiosidade -e não sendo spoiler-, em 2025, o filho da protagonista, com o irónico de "Dollar", encontrar-se-á de tal modo alienado da cultura base que apenas falará em inglês, não conseguindo sequer comunicar com os nativos).

Embora a adopção deste faseamento temporal pudesse à partida ser interessante, acaba por revelar-se o seu principal handicap, sobretudo por a "3ª parte" apresentar-se demasiado dispar das duas subsequentes, nomeadamente, ao nível da "linguagem cinematográfica" que, em determinados momentos, até soa a "incongruente com o todo" (e Jia Zhang-Ke quase perde a "poesia" que lhe é tão característica - ok, possivelmente, estou a ser demasiado critico, pois basta a cena de um grupo de jovens pop kitshs a dançar freneticamente ao som dos Pet Shop Boys, enquanto um dragão chinês se pavoneia num canto, para ficar logo rendido).
Já a utilização de 3 formatos de imagem diferenciados (tal como a transição gradual da paleta de cores variadas e intensas para uma predominância do branco e tonalidades menos saturadas) para cada um dos momentos acaba por resultar na perfeição se encararmos tais opções técnicas como uma metáfora complementar da mensagem que o realizador pretende transmitir.

Publicada a 17-09-2016 por JOSÉ MIGUEL COSTA