Cinecartaz

Fernando Oliveira

Gone girl

Se há marca que define o trabalho de David Fincher é a meticulosidade com que trabalha aquilo que é Cinema para sublimar a inteligência dos argumentos que conta nos seus filmes. Como estrutura as formas para nos embrenhar nos seus jogos narrativos. São filmes que exigem de nós um trabalho intelectual, uma capacidade para aceitarmos as regras destes jogos. É esta insegurança onde nos coloca, esta exaltação quase angustiante; resultantes de muito não parecer o que é, de nos levar muitas vezes por desvios inesperados; que nos emociona nos filmes de Fincher. É verdade que este método tem muitas vezes anulado os filmes do realizador; sempre interessantes cinematograficamente, mas muitas vezes frios emocionalmente; mas que neste “Gone girl”, de um argumento adaptado por Gillian Flynn do seu romance homónimo, sublinha de forma prodigiosa o sentido da história.Na espantosa cena inicial, a cabeça deitada de Amy enche o ecrã, a mão de Nick toca-lhe no cabelo, a cara dela vira-se para nós e o que pressentimos nos seu olhar provoca logo em nós um sentir de ambiguidade sobre o que sente aquela personagem, tranquilidade não é de maneira nenhuma o que aquela imagem, que deveria ser afectiva, nos transmite. A partir daqui, Fincher leva-nos num jogo onde a história nos é contada através de desvios e pontos de vistas diferentes; mas um filme que deveria ser um thriller policial – onde está a mulher desaparecida, é o marido o culpado? – se torna numa cruel desmontagem sociológica das ficções que criamos para nós próprios para manter a aparência de uma vida que queremos que seja perfeita; e onde a moral e os bons costumes, que também resultam dessa construção que os outros também fazem, impõem um moralismo violento que resulta em julgamentos sem regras e num voyeurismo desenfreado e doentio, empurrados pelo determinismo cruel e cinicamente imoral que nos é dado por quase toda a televisão nos dias de hoje.
O filme torna-se ainda mais perturbante, porque Fincher enreda tudo isto numa vertiginosa descrição da tragédia que é não saber que fantasmas habitam a mente de quem com se partilha a intimidade. Quem é aquela pessoa que vive ao nosso lado? Qual é o significado dos seus gestos e daquilo que exprime? Que sentido faz esta relação? Ou seja, Fincher conta-nos exactamente o oposto daquilo que a televisão nos mostra: a infinita complexidade do real não pode ser espartilhada em convencionalismos mais ou menos moralistas, e muito menos simplistas. Basta pensarmos na extraordinária pergunta que nos colocamos a nós próprios no fim do filme: aquele homem tem medo daquela mulher, a mulher detesta a vida que tem com ele, mas eles amam-se ou não?
Com extraordinárias interpretações de Rosamund Pike e Ben Affleck, “Gone girl” é um dos melhores filmes americanos dos últimos anos.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 05-04-2021 por Fernando Oliveira