Cinecartaz

Pedro Brás Marques

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“Por falar de amor” é uma comédia romântica com um toque de “cinema de autor”, ao pretender trazer para a Sétima Arte a discussão filosófica entre o que é “mais” arte: a pintura ou a literatura. O título português, obviamente, deita fora a riqueza do original, “Words and Pictures”, em mais uma demonstração em como é preferível tratar o público como estúpido.

Os dois pólos conceptuais são, portanto, um escritor (americano) e uma pintora (europeia), respectivamente interpretados por Clive Owen e Juliette Binoche. Ambos os criadores são, igualmente, professores na mesma escola e encontram-se em crise criativa. O primeiro nunca recuperou do sucesso do primeiro livro, a segunda por questões pessoais e de saúde. Ambos têm personalidades fortes, o que não impede que o amor apareça e cresça entre eles. O problema é que o escritor tem, ainda, problemas de…bebida (afinal, quem é o escritor com aspirações que o não tem?...) o que se traduz em aborrecimentos ao nível pessoal e profissional que o levam a situações de ruptura e conflito. No meio de tudo isto, arrogante e competitivo, lança um desafio à pintora: saber o que é mais importante, a pintura ou a literatura. O duelo final, claro, não é o que mais interessa, muito embora os monólogos de defesa dos arguentes sejam do melhor que o filme tem.

O filme tem o defeito inerente àquelas obras que não se definem. Querem ser (mais) uma história de amor para grandes audiências ou debater a filosófica ‘vexata quaestio’? Fred Schepsi, realizador batido na temática das comédias ligeiras, parece perdido no meio da ponte sem saber para qual dos lados ir e isso é evidente nas hesitações da história ao longo do filme: por vezes parece que vamos regressar ao “Clube dos Poetas Mortos”, outras vezes que vamos mergulhar nas tragédias de alcoólicos incorrigíveis… Outra falha prende-se com o facto de quer Binoche quer Owen escorregarem para a cabotinice. Efectivamente, aqui e ali entram em excessos interpretativos que fazem perder alguma da credibilidade na construção das respectivas personagens, como que as apalhaçando.
Enfim, um filme para passar o tempo, mas que deixa no ar o travo amargo do desperdício criativo, já que havia ali ingredientes para algo melhor e maior.

Publicada a 24-07-2014 por Pedro Brás Marques