Cinecartaz

JOSÉ MIGUEL COSTA

4 estrelas

Era uma vez um idoso alcoólico (possivelmente) com alzheimer, nunca dado a grandes manifestações de carinho familiares, que certo dia recebe no seu domicilio um panfleto publicitário, no qual vem mencionado que poderá ser um dos felizes contemplados com um prémio de 1 milhão de dólares, caso se dirija às instalações da sua empresa no Nebraska (que dista alguns milhares de kms do local em que se encontra). Pronto, eis que está dado o mote, e a peregrinação ao Nebraska passará a ser o grande (e único) objectivo de vida do velhote (por mais que os familiares o tentem convencer do absurdo de tal cruzada). Todavia, tal é a insistência que acaba por demover um dos seus filhos (por caridade) a efectuar consigo a tão ansiada viagem. E lá partem eles, qual D. Quixote e o seu escudeiro Sancho Pança, em busca do tesouro (não) perdido.

Um road-movie (onde o mais importante não é o caminho percorrido, mas sim as relações/emoções que vão despontando ao longo do percurso) belo, sensível, melancólico (sem apelar à choradeira ou à pieguice) e, em simultâneo, divertido (dotado de um sentido de humor peculiar) pela "América do quintal das traseiras". Alexander Payne mostra-nos, desta forma, o retrato de uma América rural a preto e branco (sem qualquer tipo de "verniz"), ignorada, depauperada, com a "modernidade a passar-lhe ao lado", sem esperança/"sangue novo", desencantada - onde apenas se (sobre)vive de memórias (de um passado que nunca foi um "El Dorado"). De igual modo, e com recurso a um guião simples (quase "linear", sem grandes "booms", mas, mesmo assim. cativante, por apostar nas emoções e tensões subtis - porém profundas), reflecte (sem qualquer espécie de moralismos, romantismos e/ou idealizações) sobre o papel (ou ausência deste) dos idosos nas (ditas) sociedades do 1º mundo, o choque geracional (o fosso pais/filhos), e até acerca do sentido da "existência".

E não seria justo se não referisse que uma parte substancial do interesse do filme também advém das magnificas interpretações do velhote (Bruce Derne) e da sua resmungona esposa (June Squibb) - ambos nomeados para os Óscares.

Publicada a 02-03-2014 por JOSÉ MIGUEL COSTA