Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Falsidades

Este é um filme «falso» da cabeça aos pés ou não começasse com o personagem principal a colocar uma peruca… Estamos no mundo dos vigaristas, dos esquemas, das mentiras, das golpadas que, quanto mais elaboradas, melhor para o espectador e pior para a vítima.

Aqui, o ‘twist’ está no facto de tudo ser mentira, incluindo as relações pessoais. Irving e Sidney são um casal que vive destes esquemas, até ao dia em que caem numa cilada montada pelo FBI e, para se safarem, aceitam colaborar com ele. O plano é elaborado pelo agente Richie, mas rapidamente as coisas atingem um diferente nível. É que Irving é casado com Rosalyn e têm um filho. Sidney, não é nenhuma lady inglesa, mas uma vigarista de rua. Richie, apaixona-se por ela, mas não quer que “aconteça” nada porque até tem uma noiva à sua espera. Isto para não falar no mayor que vai ser alvo de uma emboscada montada por todos eles e que até é bem-intencionado e cai nas graças de Irving. Pelo meio, chegam mafiosos de todo o lado para falar com um sheik árabe que vai investir em casinos, mas que não passa de um agente, latino, do FBI… É um pouco como o “Argo” no ano passado: a história é tão disparatada que…funciona! Esta mistura entre o campo pessoal e “profissional” das personagens, e a interacção perigosa entre eles, é a grande novidade desta “Golpada Americana”. Aliás, a fusão entre os dois mundos é tão perfeita que, por vezes, a revelação da verdade torna as coisas bem mais incómodas para as personagens do que o mundo da mentira onde todos se sentem confortáveis. “O mundo é um palco” e, aqui, leva-se Shakespeare à letra..

Dito assim, até parece interessante, mas a verdade é que é uma desilusão, catalisada pelo anúncio de “candidato a dez Óscares”. Dez?... Os actores poderão aproximar-se da estatueta, mas a competição é imensa e intensa… Agora, fraca é a realização, enredando demasiado as coisas. É impossível não olhar para esta “Golpada…” e não recordar outros filmes de vigaristas que, em apreciação global, deixaram muito melhor sabor na boca de qualquer cinéfilo. Desde logo, claro, a obra-prima do tema, “Goodfellas”, de Martin Scorcese. Depois, “House of Games”, o magistral filme de David Mamet que é uma verdadeira escola de vigaristas e, para fechar o pódium, o “Jackie Brown” de Tarantino. Mesmo numa perspectiva mais “leve”, algo de que David O Russell, por vezes, parece não querer afastar-se, bastaria recordar “Apanha-me se puderes”, de Spielberg, e o quase clássico “A Golpada”, de George Roy Hill. O problema, aqui, é claramente da realização… Teria sido muito melhor se David O Russell tivesse “copiado” o mestre Scorcese. Iria, certamente, apresentar muito melhor serviço. Não o fez e lá tem o espectador de aturar um pesado e lento desenrolar da história, quando o que se queria era agilidade. Temos planos estáticos e previsíveis quando se queria uma criatividade a ombrear com a das vigarices... A julgar por este filme e pelo anterior, “Guia para um Final Feliz”, teme-se que o apogeu de Russell tenha ocorrido, há quatro anos, com “O Lutador”.

Safam-se, sem dúvida, os actores (e Russell até foi buscar alguns secundários a “Boardwalk Empire” e recuperou Robert de Niro – Atlantic City/Scorcese connections…) em especial a dupla Christian Bale e Amy Adams. O primeiro, em mais uma transformação física, deixando crescer a barriga para interpretar Irving, o brilhante mas fisicamente descuidado vigarista (mesmo assim, não, não é um ‘touro enraivecido’ quem quer, é só quem pode…) que controla toda a história. Amy Adams está fantástica, sensualíssima, luminosa. Jenniffer Lawrence regressa a um grande desempenho (num registo muito superior ao oscarizado “Guia para um Final Feliz”), a relembrar a qualidade com que havia chamado a atenção em “Despojos de Inverno”. Já Bradley Cooper está um desastre, numa cabotinice desajustada. Se calhar, é melhor dedicar-se a comédias idiotas onde, pelos vistos, tem bastante sucesso…

Publicada a 03-02-2014 por Pedro Brás Marques