Cinecartaz

Fernando Oliveira

American hustle

É uma mistura de heist movie com uma história romântica que por vezes nos faz sorrir mas que não tem nada de comédia. É um filme onde os adereços e as máscaras que as personagens criam para eles próprios, muitas vezes a roçar a caricatura, são tudo menos artifício mas sublinhados dos caracteres que cada um pensa, ou deseja, ser. Mas é um filme que usa esses adereços como definidores de uma época que não tinha medo do ridículo, e que o assumia como valor estético; e onde as peculiaridades formais do realizador, tiques, e citações de filmes e “ares” dessa época, se enquadram assim muito bem na ideia do filme.
É verdade que é um filme que cheira a Scorsese, Bogdanovich ou Pakula (os vertiginosos decotes da personagem interpretada por Amy Adams neste filme, recordaram-me as camisolas de gola alta que Jane Fonda usava, sem usar soutien, em “Klute”); é verdade que Russell não gosta de correr riscos; é verdade que o argumento às vezes se confunde, e nos confunde; mas o prazer de ver um filme que tem gosto em contar uma história, e de ver o trabalho de um realizador que gosta dos seus actores é algo de muito agradável. E que actores: Amy Adams é extraordinária a encharcar-nos de sensualidade misturada com a tristeza de um amor incompleto; Christian Bale e Bradley Cooper são cromos quase perfeitos de uma época em que a importância da aparência conduzia muitas vezes à tragédia; Jennifer Lawrence é magnífica naquela mulher que tudo faz para manter a vida que encenou para ela; e Jeremy Renner representa o político que realmente pensa nas pessoas, mas não olha a meios para atingir os fins. Jogos de poder, manipulações e enganos…
Muito livremente inspirado numa operação muito duvidosa que o FBI levou a cabo em 1978 para apanhar políticos corruptos, sem ligar muito à legalidade dos meios que utilizava; “American hustle”, mais ainda que um filme que narra esta história, parece-me ser muito mais um filme sobre uma mulher apaixonada, que por amor ou por despeito, vai baralhando as cartas da história; ou sobre duas mulheres apaixonadas pelo mesmo homem; ou sobre esse homem que ama uma delas, e se calhar também a outra; ou sobre outro homem que deseja a primeira, que está apaixonada pelo outro, mas que por ciúme se aproxima deste (jogos de poder mais uma vez); é portanto um imenso drama romântico, com personagens que as emoções tornam quase patéticas, que tem tudo para desaguar na tragédia, mas que por acaso até tem um final feliz, e isso é muito bonito.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 19-01-2021 por Fernando Oliveira