Cinecartaz

Fernando Oliveira

O lobo de Wall Street

Poderia escrever sobre a vertiginosa amoralidade que parece definir o personagem de Jordan Belfort; ou de como essa vertigem se apropria de todo o filme, no que é contado, na forma frenética como os personagens se movem na história, mas que também define o olhar do realizador; poderia escrever como a ideia de que o filme é uma espécie de comédia negra que se deixa contaminar por uma perturbante sensação de angústia que o leva irremediavelmente para o lado da tragédia; ou de como o extraordinário trabalho de montagem de Thelma Schoonmaker sublinha perfeitamente esta ideia de vertigem.
Há também o virtuosismo de Scorsese e o seu olhar moral sobre a falta dela no mundo que retrata: aquele selvagem e niilista que é o da circulação do dinheiro, e do poder que tê-lo dá, que se torna numa liberdade que tudo permite, sexo e drogas, a possibilidade de usar e abusar de toda a gente; uma visão que roça o grotesco e o “pornográfico”. Há um retrato de uma personagem quase demencial, que vive numa espécie de tempo suspenso, que a julgada ausência de efeitos faz “rolar” numa avalanche incontrolável até à perda; com uma interpretação genial de Leonardo DiCaprio muito bem acompanhado por Jonah Hill e Margot Robbie. Há uma história narrada para nós pela personagem principal que é um cruel retrato do vale tudo na desenfreada procura de manter a impunidade, a liberdade que a posse de dinheiro permite, porque é essa sensação que Jordan quer, poder tudo fazer e tudo poder ter; uma história passada nos anos 80, mas ao mesmo tempo bastante actual. Há a forma como Scorsese conta a história sempre á beira do ridículo, mas evitando-o sempre, e neste exagero reforçando a ideia da ausência de regras daquele lado da sociedade, uma visão terrível desse mundo. Há, enfim, um filme verdadeiramente apaixonante sobre personagens e acontecimentos muito pouco recomendáveis da nossa história recente. Há isto tudo, mas o sentimento que fica é aquela angústia por percebermos que todos nós mais do que vítimas somos, com mais ou menos maldade, cúmplices deste mundo. Que todos, uns mais do que outros, estamos dominados pela necessidade inultrapassável de termos quanto mais dinheiro melhor. Que o Mundo está feito assim. É essa certeza que a história de Jordan Belfort, e a forma como Scorsese a conta, nos transmite. E que está tão bem espelhada nos olhos, e no que eles vêem, do agente Denham numas das cenas finais do filme, no metro.
Muito bom.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 14-04-2021 por Fernando Oliveira