Cinecartaz

Cerveira Pinto

Da inconsistência do hiper-realismo

Confesso que tinha alguma curiosidade de ver um filme de Steve McQueen, já que os anteriores “Fome” (2008) e “Vergonha” (2011) foram bastante aclamados pela crítica e até premiados. Não tive porém a oportunidade de ver nenhum deles, o que não aconteceu agora com este “12 anos escravo”. Lamentavelmente, as expectativas eram demasiado elevadas para um produto de não tão grande qualidade. O filme parece feito à medida de Hollywood, com produção meticulosa e híper-realismo q.b., partindo mesmo de uma história verídica. No entanto à custa de tanto realismo o filme acaba por tornar-se caricatural, num desenrolar infindável de horrores e torturas que de tanto querer “mostar” a maldade humana acaba por a banalizar, ficando ainda a sensação de algum “voyeurismo”. As personagens perdem assim densidade e caem num registo exacerbadamente dramático que, inclusive, lhes retira alguma credibilidade. Também o aparecimento de Brad Pitt que se arrasta pelos minutos finais do filme parece “encaixar” numa lógica de cedência aos interesses comerciais da máquina “hollywoodesca”. A história acaba também por se tornar pouco atractiva sob o ponto de vista narrativo. Na realidade, pouco acontece num período de 12 anos, para além do já referido, sendo que alguns dos momentos mais interessantes são os que conseguem dar uma ideia da cultura afro-americana, nomeadamente através da música. A realização é escorreita, sem defeitos, mas também sem rasgo.

Publicada a 13-02-2014 por Cerveira Pinto