Cinecartaz

Pedro Brás Marques

Metáfora contemporânea

Hoje, como nunca, vivemos numa época de aparências. A verdade está sempre voluntariamente escondida atrás de rótulos, de etiquetas, dos comportamentos ‘certos’. Hoje, como nunca, substituímos o verbo ‘ser’ pelo ‘ter’ mas, paradoxalmente, mentimos quando conjugamos qualquer um dos dois.
«Blue Jasmine» é a história de Juliette, uma órfã que subiu a escada social americana mesmo até ao topo. Vivia rodeada de um luxo ostensivo e barroco. Mas, um dia, tudo isto acaba por ruir: o seu marido de então revela-se um burlão financeiro e o esquema acaba exposto. Humilhada, refugia-se em San Francisco, junto da irmã, uma criatura simplória, mas de bom coração, e que, tal qual ela, procura o seu cantinho de felicidade.
Para Jasmine, o nome ‘upper class’ que passara a identificá-la na Cidade que Nunca Dorme, o desabar do seu mundo dourado foi, claro está, traumático. Aliás, ela nem acredita bem na tragédia que aconteceu porque sempre recusou ver o que estava à frente dos olhos. Jasmine sabia que algo estava mal, mas não queria acreditar. Sabia pelas conversas que escutava, que os negócios do marido nãos seriam lá muito legais, mas dizia, para si e para quem a ouvia, que não se interessava por isso. Sabia que o marido a traía, porque era alertada para tal, mas não queria acreditar, preferindo a mentira convicta de Hal, o seu cônjuge, que a havia de levar a uma odisseia, não no espaço como o fez o seu homónimo 9000 na obra-prima de Kubrick, mas pela lower class de San Francisco. Jasmine adorava aquele mundo frívolo de festas, de compras, de glamour, onde era uma verdadeira rainha. E este é o seu grande problema: a alergia à verdade. Ela prefere um mundo sereno e calmo, mesmo que mentiroso, a um verdadeiro, mas duro. Depois de um calvário de empregos e de frustrações num cenário de gente humilde e pobre, Jasmine acaba por encontrar uma segunda oportunidade, qual herói de um filme de Howard Hawks, na pessoa de um jovem político. Recorde-se que em «Match-Point», Woody Allen invocara a Providência para salvar o assassino de ser apanhado – quem não se lembra da famosa cena do anel a saltar no ar junto ao Tamisa – se cair ao rio, ele safa-se; se cair no chão, ele acaba na cadeia. Aqui, também há um momento desses: é quando o tal jovem político lhe pergunta sobre o seu passado. Formulada a pergunta, Woody Allen faz um close-up a Jasmine e, por uns momentos, parece que o filme pára, à espera da resposta. Será que ela vai dizer a verdade ou investir na mentira? Porque a sua resposta irá condicionar, como condicionou, o resto do filme e o desenlace da história.
É óbvio que Jasmine é uma metáfora dos tempos que correm. Ainda há pouco éramos todos ricos, os horizontes não tinham limites e a felicidade era um dado adquirido. Mas a verdade é que era tudo aparência, não havia dinheiro nem para sustentar um tal estilo de vida, nem os Estados tinham capacidade para gastar desenfreadamente como estavam a fazer. Naturalmente, veio a crise financeira e, logo a seguir, a económica e fomos forçados a alterar os nossos padrões de vida – para pior! A grande questão é: e se, por acaso, tivermos uma nova oportunidade? E se voltarmos a viver em abundância, o que é que vamos fazer? Iremos agarrar esta segunda oportunidade sem recorrer ao desperdício e ao esbanjamento, demonstrando termos aprendido a lição, ou iremos cometer o mesmo erro, de novo? Através de Jasmine, essa flor que também deu nome à princesa Disney do mundo encantado das ‘1001 Noites’, Woody Allen alerta-nos para os perigos da superficialidade, da futilidade e, principalmente, da mentira. Mais tarde ou mais cedo, a conta chega e não irá ser agradável. Ricos ou pobres, a opção está sempre de nós.
Allen vai-nos contando a história do ponto de vista de Jasmine, a partir do momento em que chega a San Francisco, mostrando-nos em sucessivos flashbacks a sua vida pré-falência. Esta montagem paralela foi, sem dúvida, uma brilhante opção, porque permite ao espectador ir apreciando, em porções curtas, as diferenças entre os dois estados de vivência, sem o empanturrar com duas pesadas e monolíticas doses. E, é claro, pelo que se disse atrás, o argumento e os diálogos são de absoluta excelência.
Cate Blanchett está divinal. Uma interpretação fantástica e superlativa. A actriz australiana carrega o filme todo praticamente sozinha, espalhando elegância e bom gosto, oscilando de forma segura entre estados depressivos e de reservada euforia. Estamos, claro, a falar de uma representação de nível de Óscar, sem qualquer dúvida. Mas os secundários são, igualmente, brilhantes com destaque para Sally Hawkins, excelente no papel da irmã de Jasmine, condescendente para com ela e as suas manias e conformada com a vida que tem e Bobby Cannavale, o segundo namorado desta, num papel que lembra, imediatamente, o que fez em ‘Boardwalk Empire’, onde dava vida ao louco ‘boss’ mafioso Gyp Roseti.
Um grande filme com uma vigorosa metáfora dos tempos que correm. Afinal, a "flor", como o é a do jasmim, sempre foi um dos mais conhecidos arquétipos da...alma.

Publicada a 20-10-2013 por Pedro Brás Marques