Cinecartaz

Nazaré

Merecia ter ficado melhor

Começo pelo pior: excesso de cenas que juntam pouco ou nada ao filme. Noutras paragens, é comum, na fase da montagem, o corte de cenas que se revelam supérfluas, ou que podem prejudicar o ritmo da narrativa; acabam nos extras dos DVDs, e geralmente temos de concordar que não faziam falta. Mas não com o falecido Raul Ruiz e com a sua viúva, Valeria Sarmento, que realizou este filme e no início lhe atribui a sua preparação. Ficávamos todos a ganhar se houvesse outro sentido de economia e de encadeamento das cenas, só com isso poderia ter ficado um filme bem cativante.

Continuo pelo melhor, e que para mim é o que justifica ir ver-se: a preocupação de passar a "atmosfera" daqueles tempos, nas roupas, nos ambientes, na maneira como a câmara nos coloca dentro das cenas. Mas até aqui há nódoas de anacronismo: plantações de eucalipto, falas em estilo moderno, ou o Albano Jerónimo a recitar a Salve Regina em Português...

A história centra-se em duas personagens, desde a batalha do Buçaco às linhas de Torres: a do sargento (Nuno Lopes) do exército anglo-luso, em cuja terra natal andam a ser construídas, há ano e meio, as fortificações que dão o título à fita (e acabarão por obrigar Massena a retirar), e a do tenente (Carloto Cotta), que faz percurso paralelo, clandestinamente, misturado com um pequeno bando de desertores do exército francês. Ambas as jornadas passam-nos quadros sucessivos das personagens da época, desde os mais distintos aos mais miseráveis, em situações que põem a tónica no quotidiano e não nos grandes marcos históricos. Interessante como retrato da época, mas com pouca ligação narrativa (peca o argumentista) e às vezes mal encenado (peca a realizadora), e muito, mas mesmo muito, mal servido em termos de música ambiente.

Publicada a 25-10-2012 por Nazaré