Cinecartaz

MIGUEL COSTA

Chamem a ASAE

Um filme qu,e no fundo (e não é preciso ir assim "muito fundo"), é um documentário sobre uma criança pobre (e não sobre uma pobre criança), com 4 anos de idade, que passa a maior dos dias isolada, por sua própria conta e risco (uma espécie de "sozinha em casa" em versão naturalista, e sem vilões). A sua mãe é negligente?

Enviesadamente acabamos por não a ver dessa forma, pois assumimos que tal conduta comportamental talvez seja reflexo de uma questão cultural, bem como fruto da sua situação socioeconómica precária. Além do mais, os momentos que vivem em conjunto são plenos de "qualidade e partilha", e mesmo quando a figura materna está ausente, a menor não denota qualquer indicio de infelicidade e temos a (falsa) ilusão de que esta nunca incorre num verdadeiro risco, na medida em que se encontra plenamente adaptada/integrada no "todo" que a rodeia (mas serão estas "condicionantes" motivo para se desculpabilizar/"fechar os olhos" perante tal "negligência" pura e dura?).

A realizadora confronta-nos desta forma (e sem qualquer espécie de moralismos/justificações) com um dilema interessante. Isto aliado ao facto de ter tido a sapiência de gerir o tempo do filme -68 minutos- com eficácia, conseguindo que este nunca se torne aborrecido, mesmo sendo desprovido de diálogos dignos de registo (também muito por mérito da excelente fotografia e pela empatia/naturalidade da pequena "actriz"), poderia supor-se estarmos perante um bom produto cinematográfico. Mas a verdade é que é impossível esquecer os cerca de 11 minutos iniciais em que é filmada, na íntegra, a matança de um porco, com todos os pormenores cruéis (e mais que dispensáveis). Onde anda a ASAE francesa? E foi isto classificado como filme para "maiores de 12 anos"? Please... E eu que até sou completamente contra a censura, via aqui bons motivos para que a mesma fosse aplicada!

Publicada a 23-06-2012 por MIGUEL COSTA