"O Cavalo de Turim", de Béla Tarr
Aqui não há um cavalo a correr pelo meio da floresta, com o som de um piano de fundo a sugerir algum lirismo ou qualquer coisa para esquecer no dia seguinte, mas a história de uma família (pai e filha) e a sua dependência de um cavalo numa terra árida e hostil. Cinco dias de sequências/planos num crescendo de pessimismo existencial. No exterior da casa há um vento devastador que adensa o esforço e o sentimento da pequenez humana perante a vontade da natureza. A terra e tudo em redor não é mais que pó e folhagem seca arrastada pelo vento, como as palavras dos breves diálogos entre pai e filha. Planos-sequência de dias inteiros, carregados de pessimismo e sem uma luz de esperança. No interior, há som do vento que vem de fora e as imagens (como há muito não via) são precisas como facas quando nos cortámos - descrevem movimentos interiores como se de um ritual se tratasse. Quando o cavalo adoece e deixa de comer, também a família vai desistindo, em silêncio. A decadência física do pai coincide com o desaparecimento da água do poço. Há mesa, rosto com rosto e não se vêem - porque a escuridão e oxigénio é a mesma coisa quando respiram.
Vasco Ferreira Campos