Cinecartaz

Maragarida M Silva

Aqui no bairro, não há milagres

Há cabides solitários dentro do guarda-roupa. Há uma casa cujo recheio escasso marca uma existência que se confina ao essencial. Há um bairro pobre, de ruas e becos desertos, com três "quadros" [a boulangerie, a mercearia, o café] que espelham uma vivência rica, porque cúmplice e solidária, sem faltar a figura do vizinho delator. Há uma cidade portuária, triste como as demais, cuja actividade é motor e sustento daqueles que nela vivem. E neste micro território, em que o décor, adereços e figurinos dos anos sessenta se cruzam ironicamente com as notas em euros e jornais de 2007, passeiam-se personagens (e uma cadela) extraordinárias: do engraxador e protagonista (um romântico incorrigível), ao seu companheiro de profissão (cuja mudança de identidade foi o preço da sua integração), passando pela esposa dedicada e maternal, sem esquecer a dona do café (eterno ombro de quem por lá passa) ou o detective criminal de aparência dura e rosto fechado, mas capaz de gestos reveladores de uma sensibilidade escondida. Temos ainda a galeria de frequentadores do café, com as suas conversas improváveis (a autonomia bretã ou a melhor maneira de cozinhar amêijoas) e a comovente força e tenacidade de um jovem africano em fuga, com Londres no horizonte para se reunir à sua mãe.
Em dada altura, a mulher diz que, ali no bairro, não há milagres. Enganou-se, para felicidade de todo nós. A política não nos salvará, mas a humanidade talvez.

Publicada a 27-03-2012 por Maragarida M Silva