Cinecartaz

Nazaré

As encenações da espionagem

O mundo da espionagem, neste caso durante a Guerra Fria nos anos 70, é todo feito de ilusionismos, de enganos. Em suma, é onde reina a encenação. John le Carré (que aparece na hilariante cena do pai natal soviético) como que faz uma compilação de encenações, onde as personagens são, à vez, encenadores, actores ou espectadores. Um mundo fascinante, perigoso e paranóico. Mas esta fita faz-nos sentir completamente por fora do que se passa, dando uma sensação de desconforto que se arrisca a alienar o público mais do que envolvê-lo: a acção demasiado fragmentada, o excesso de subentendidos, os alinhamentos difíceis de compreender, sendo fiéis ao estilo de le Carré, e decerto eficazes a passar-nos o ambiente de risco permanente, são uma onda onde nem todo o público se sente bem. Dentro do que se pretende cinema de grande público, roça o pretensioso, o que é pena. Mas note-se que isso é mais um problema de expectativas do grande público, demasiado habituado a formatos previsíveis; em nada tira ao elevadíssimo nível técnico e artístico desta fita.
Gary Oldman é um actor extraordinário e encontra-se aqui com um papel muito bom, enchendo a sua actuação de pormenores deliciosos, mas é Colin Firth quem, em crescendo na parte final, causa uma maior impressão. Mais que isso, vale o conjunto dos actores, que nos trazem as personagens cruas, solitárias, dos soldados da Guerra Fria. Notável.

Publicada a 05-01-2012 por Nazaré