Cinecartaz

Fernando Oliveira

Um Método Perigoso

Com um argumento adaptado por Christopher Hampton de uma sua peça para Teatro, este filme de Cronenberg, “Um método perigoso”, tem algumas dificuldades em ultrapassar a sua ascendência. Ou seja, nota-se demasiado a teatralidade do texto e os diálogos excessivos que tornam o filme muitas vezes algo árido, seco de emoções.
Nada disto tira mérito à realização de Cronenberg, num filme em que está inscrita de forma marcante a sua marca de autor. Se não é um filme em que os instintos mais básicos dos personagens são representados por mutações, físicas ou delirantes, que explodem dos seus corpos; se a violência maligna que define os personagens doutros filmes do realizador não está presente neste – embora a forma limpa como nos mostra a sociedade do princípio do século passado, não mostrando a miséria em que vivia grande parte da população europeia da época, seja uma forma de “esconder” debaixo da “pele” social, a bestialidade e os instintos mais horrorosos que iriam levar a Europa à barbárie que se aproximava: a particular relação entre a parte física e moral que nos seus filmes leva à sexualidade doentia e extrema (como em “Crash”); o mundo dos homens condicionado e amedrontado pelo poder “sexual” das mulheres (como em “Rabid” ou “Dead ringers”); a vertigem provocada pelos abismos mais profundos da alma humana (como em “Uma história de violência” ou “Eastern promises”); tudo isto, de outras maneiras, está presente neste filme que conta a história do conflito entre Freud e Jung, com uma mulher (uma doente, a russa Sabina Spielrain), e a sua sexualidade (os fantasmas, os tumultos interiores), pelo meio a redefinir os conceitos de vida de Jung (Sabina tornar-se-ia sua amante e, depois, sua discípula); e o que está aqui encenado é a vertigem que Esta desordem moral provoca na normalidade exigida àquela relação; e por consequência também de Freud.
Com actores extraordinários, Michael Fassbender, Viggo Mortensen, Sarah Gadon e, acima de todos, Keira Knightley com um desempenho magnífico numa representação encima do arame entre o sublime e o ridículo, balançando sempre para o primeiro lado.
Não será uma obra-prima como muitos outros filmes de Cronenberg são, mas é um filme interessantíssimo, com um rigor cenográfico extraordinário e uma realização notável na sua perfeição, chega a ser um filme austero, mas também admirável na sua criatividade.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 29-03-2021 por Fernando Oliveira