Cinecartaz

Pedro Silva

O tão aguardado Regresso de Tintin

Muito dificilmente não se enquadra Tintin como uma banda desenhada projectada e pensada para um público mais adulto. Não creio que outra fosse a intenção de Hergé, aliás, nem o clima social que se vivia o permitia.
Tintin criado por Georges Rémi, ou mais conhecido pelo seu nom de plume Hergé, surge em 1929 num suplemento da revista Belga " Le Vingtième Siècle " o " Le Petit Vingtième" e a par com Spirou et Fantasio assume a mais importante evolução da banda desenhada. Como era sabido, e Hergé pouco ou nada escondeu, as características que marcaram o processo criativo de Tintin estavam intimamente ligadas aos acontecimentos políticos e sociais da época, bastando para isto analisar os livros, desde o mais pequeno esboço à mais hilariante conversa. Vejamos a maneira como Tintin é retratado em relação a outras personagens, povos, culturas, crenças. A sua relação com o nazismo era tudo menos surpreendente, sendo acusado por incluir neocolonialismo, racismo e até certo ponto anti-semitismo, Hergé criou uma obra de difícil digestão se realmente a quiserem entender e perceber na plenitude. O que mais se destaca é a caracterização das personagens, recorrendo várias vezes a estereótipos e associações infelizes.
Tintin é o herói que tenho presente desde a infância, desde que pela primeira vez li os livros e explorei a obra, mas apesar de tais considerações Tintin é para ser lido e apreciado, explorado e vivido. De outra maneira não seria possível.
Este ano saiu o filme que retrata o primeiro livro que li, um misto de sensações surgem, principalmente saudade e nostalgia. A ansiedade para o ver era muita, mal me continha para entrar na sala de cinema e sentar a apreciar e relembrar a personagem eterna da minha infância.
Realizado por Steven Spielberg e Peter Jackson, The Adventures of Tintin é um marco na sua geração, um híbrido entre animação e captura de movimentos, uma "fiel" reprodução da banda desenhada.
Era importante adaptar a obra a um filme que fosse possível abranger o maior número de espectadores, trazendo memórias a uns e introduzindo este intrépido aventureiro a uma nova geração, e foi de facto conseguido.
Partindo do livro O Segredo do Licorne, o filme segue a lógica do livro construindo e inovando, dando vida a personagens que só por si já rebentavam de vida nos pequenos quadradinhos dos livros e que tanto desejavam um filme que as fizesse recordar e dignificar. Girando à volta de um barco que o personagem compra, contendo uma estranha mensagem, eis que uma névoa de acontecimentos envolvem repentinamente Tintin que dando liberdade ao seu espírito insaciável decide investigar, acompanhado do seu cão Milu, por si só uma personagem completa. É com gáudio que vemos pela primeira vez que estes aparecem, juntamente com os irmãos detectives Dupont e Dupond. Em tudo iguais ao livro, quero apenas referir que estamos perante um Tintin, apesar de tudo, diferente do dos livros, tem o seu quê de arrogância e altivez mas com a subtileza própria de um aventureiro, não fossem os realizadores peritos na sua arte de recriar/criar aventureiros, aventuras, contos...
A sua busca pelos segredos da mensagem levam Tintin a encontrar Ivanovich Sakharine e o sultão entre os sultões, o capitão entre os capitães, o bruto, carrancudo, bêbado Capitão Haddock.
Partem por um tesouro do antepassado de Haddock, um barco afundado, mas uma busca em que mais alguém tem o mesmo objectivo. Por mares e desertos Tintin, Haddock e Milu partem em busca dos segredos do licorne e dos Haddocks. Apesar de não constar no livro Bianca Castafiore é introduzida na história de forma soberba, e visto ser uma trilogia, apreciei especialmente o facto de aparecer neste primeiro.
Mas este filme, considero sem margem para dúvidas, uma representação fiel e brilhante do espírito presente nos livros, marca essencialmente pela sua qualidade técnica e o 3D que finalmente não faz doer a cabeça enquanto se tenta ver o filme. Steven Spielberg e Peter Jackson conseguiram criar algo de novo, algo fascinante com interpretações fantásticas dos actores que deram o seu "corpo" às personagens. Os diálogos são inesperados e incrivelmente divertidos, tendo o seu toque de misterioso. A qualidade visual, o mais ínfimo detalhe, expressão, emoção foi transportada para fazer o melhor filme de animação até hoje. É verdade que se pauta pelo inovação da conjugação da captura de movimentos e da animação, uma simbiose que permitiu a Spielberg e Jackson ter liberdade para criar, inventar, brincar, construir, reconstruir algo que nunca os tínhamos visto fazer antes nem de que tal seriam capazes. Uma imagem vale mil palavras, Tintin vale enciclopédias, se Toy Story foi o primeiro do género, Tintin é o rei e veio para ficar. Transportando pedacinhos da sua experiência e personagens Spielberg trouxe algo mágico e inexplicável. Um Tintin que faz inveja a Indiana Jones!
Ao início fiquei céptico pela escolha dos realizadores duvidando se sabiam exportar a essência dos livros, mas no final temos uma fiel reprodução limando as arestas presentes na obra tornando-a mais acessível, (limpando os traços que foram referido na introdução feita nesta critica ao passado histórico de Tintin), dando-lhe mais aventura, mas mantendo as características a que nos habituaram os livros. A cena do deserto em que Haddock, a delirar com o calor e falta de álcool, imagina um barco a surgir por detrás das dunas está incrivelmente bem imaginada, algo que Hergé teria orgulho de ver. Ficamos nós com essa possibilidade, e de saborear todos os momentos que nos proporciona os ataques de raiva e loucura do Capitão Haddock. Obviamente que seria a personagem mais difícil de recriar, podendo cair na risada fácil, mas desengane-se quem pensa isso. Todos os traços de personalidade estão lá, magistralmente ligados e adaptados.
Podemos falar de fotografia num sentido muito amplo, e assim sendo, a idealização e concretização de todos os cenários e planos está sublime, indo buscar a técnica na utilização de cores que era a qualidade máxima de Hergé, complementada com uma banda sonora calma quando o tem que ser, entusiasmante quando tem que o ser e frenética sempre que nos agarramos à cadeira e embarcamos nesta aventura de contornos épicos.
Tintin é uma recriação fiel, sem lacunas, do espírito dos livros, ligando a tecnologia moderna, o fantástico desempenho dos actores, de referir Jamie Bell, um actor mal aproveitado que não tem sabido escolher filmes, e Andy Serkis, Gollum do Senhor dos Anéis, o grande artista pela evolução da captura de movimentos. Atingiu-se um novo patamar de criatividade e exigência ao alcance de muito poucos e transformou-se um livro numa aventura, melhor, concretizou-se o sonho de gerações que tiveram em Tintin o seu herói e companheiro de quando no seu imaginário o acompanhavam nas suas aventuras. Mais do que história criou-se um ideal fantástico que vai perdurar.
Mas ainda não acabou, mais está para vir!

Publicada a 22-11-2011 por Pedro Silva