Cinecartaz

Pedro Vardasca

Uma catástrofe em câmara lenta

O norte-americano Steven Soderbergh continua a sua peregrinação pela diversidade do cinema, desta vez abeirando-se do filme-catástrofe, o que acrescenta mais uma peça a uma carreira gerida entre o coração da indústria e outros lugares mais esconsos, normalmente preenchidos por pequenas obras que contradizem os códigos do espetáculo hollywoodesco. "Contágio" não pertence categoricamente a nenhum destes pólos, ainda que ambos estejam nele bem presentes.

Do centro vem o brilho de atores cimeiros - Damon, Paltrow, Law, Winslet, Fishburne..., enquanto as pulsões centrífugas do realizador se encarregam de erodir o capital de prestígio daquelas mesmas personalidades, que vêem o seu brilho recuar no seio de uma história focada numa pandemia que cerca, literalmente, a humanidade, mas cuja narração não obedece aos estereótipos apocalípticos de outros filmes do género. Porventura, esta indefinição justificará as dificuldades do filme em fixar um público rendido às suas eventuais virtudes, pois se os nomes cativam o grosso dos consumidores, o despojamento das suas interpretações causará estranheza a este mesmo público, enquanto uma minoria poderá hastear a bandeira do preconceito face a um objeto tido por fabril, mesmo que modelado pela mão de um homem capaz de empreitadas muito significativas.

Claro que podemos sempre preferir uma terceira via, aquela que é capaz de libertar-se das posições mais monolíticas, incessantemente envolvidas no confronto entre a relevância da quantificação industrial - que não dispensa o maravilhamento pirotécnico - e a ideia de um cinema reflexivo, que secundariza a velocidade dos acontecimentos que se vão desenrolando na tela. Nesta perspectiva, "Contágio" percorre um caminho insólito. Soderbergh redimensiona parte da nata do cinema norte-americano, depurando-a do seu fulgor. Os exemplos são variados. Damon é uma figura abúlica, muito longe das personagens que lhe têm sido talhadas. Paltrow ainda está menos viva e chega a ser uma verdadeira beleza morta a cargo da medicina legal. Os outros, já referidos, aparecem sem uma marca distintiva, ao serviço das intenções do argumento.

Por isso, é nas especificidades deste que encontramos a riqueza de um filme que transforma o profissionalismo cimeiro de Hollywood num instrumento de crítica ao estado de uma nação, a norte-americana. Através de uma trave-mestra da projeção mundial do país - o cinema -, coteja-se a sua agilidade em transportar centenas de milhares de homens para o outro lado do Planeta com a desorientação assustadora perante uma doença. Na verdade, não são apenas os cidadãos anónimos que receiam o avanço do desconhecido, mas toda a hierarquia social, que ameaça decompor-se por causa da lentidão com que se caminha para uma vacina.
A Soderbergh não interessa o heroísmo habitual deste cinema, mas antes a análise de uma contradição aberrante: a irracionalidade na gestão das prioridades dos recursos torrenciais dos Estados Unidos da América, um país capaz de prodígios científicos inimagináveis até há poucas dezenas de anos, como a exploração espacial, mas que ainda estremece, de alto a baixo, em questões de natureza social, como no caso do furacão Katrina em 2005. Ora a saúde pública pertence exatamente a este domínio e "Contágio" acaba, pelo olhar do realizador, por acercar-se das tonalidades do documentário, luxuosamente ornamentado de símbolos fundamentais da cultura de massas, aqui despojados do seu magnetismo.

Sabemos que o futuro não reservará um lugar especialmente importante para este "Contágio", que é o resultado de pressupostos razoavelmente inconciliáveis. Um filme aparentado ao género catastrófico, cujas especificidades carecem de acentuada trepidação, mas realizado em câmara lenta, essencialmente interessado no registo da corrupção de um edifício, um país inteiro a simbolizar a humanidade à beira do abismo. Apesar das dúvidas de muitos, Soderbergh fá-lo com notável mestria e embaraça o ego coletivo de uma potência que, dizem, não conhece igual em toda a história.

Assim, "Contágio" é, antes de tudo, a narrativa de uma estranha fragilidade. Ainda que falho de um didatismo explícito, não podemos deixar de considerar o filme como um ótimo exemplo sobre a incapacidade da humanidade em aprender as lições que o tempo, prodigamente, lhe vai concedendo. Como se tem visto, o modelo de eterna expansão económica com que nos seduzem encarrega-se de obliterar o sentido crítico que a natureza nos consentiu.

Publicada a 06-11-2011 por Pedro Vardasca