Cinecartaz

Nazaré

Não é grande coisa

Gosto do ritmo da narrativa, cada cena está muito bem dramatizada, a realização é de mestre (como se esperaria de Soderbergh), os actores estão ao seu nível (o que é muito bom neste elenco de estrelas). Mas a história é fraquita. É um género algo estafado, desta vez optando-se por nos dar uma espécie de reportagem, distanciada, neutra até, e onde se aproveita demagogicamente para lançar umas achas à fogueira da desconfiança no governo e nas autoridades sanitárias (a desautorização blogger é demasiado discreta). E dispersa-se por muitos pólos, tornando as ideias demasiado superficiais ou então subliminares, ou seja ineficazes. Seria demasiada coisa para um filme desta duração, se tivessem feito algo mais longo talvez ficasse bem melhor. Este realizador seria capaz, sem dúvida.

O que faz suspeitar que se apostou em nomes sonantes para encobrir a falta de ideias e de empenhamento da produção. Uma treta de filme, portanto. Opta por ser demasiado verbal, o que lhe rouba muito do impacto, usa separadores com a contagem dos dias como recurso baratucho (ou apressado), e há muitas inconsistências. Não devíamos sentir o medo dentro das personagens? Não devíamos sentir o alastramento da doença sem ser só por números? Não devia explicar-se como as cidades ficaram fantasma? (e onde pára a polícia?) Não devia morrer menos gente nos primeiros infectados? E no contraponto com a realidade: comparadas com as revoltas de Tottenham em Agosto passado, as cenas de pilhagem/desenfreamento encenadas até parecem de crianças, e a "explicação" final até parece visar m branqueamento da gripe A. Há muita coisa mal pensada, ou então pensada a fazer de nós parvos. Ainda não chegámos a isso, pois não?
Mas o que realmente me irritou é a persistente preguiça dos legendistas, que não traduzem SARS para pneumonia atípica, ou clusters para focos. Ou é mesmo só ignorância?

Publicada a 11-11-2011 por Nazaré