Cinecartaz

David Bernardino

Análise Social de um Vírus

Com alguma antecipação chega finalmente este "Contagion", um interessante filme que tenta desfiar o que aconteceria se realmente um vírus como a gripe das aves ou a gripe A se espalhasse eficazmente por todo o Mundo. O filme não desilude, mas também não entrega totalmente aquilo que prometia.
"Contagion" apresenta um elenco de luxo que só por si leva o espectador ao cinema: Laurence Fishburn, Jude Law, Matt Damon, Kate Winslet, Marion Cotillard , Gwineth Paltrow, entre outros bons actores que num filme "normal" veriam o seu nome no cartaz. Evidentemente que o problema disto é que nenhum deles consegue encontrar o seu espaço, e muito menos screen-time, de forma a justificar a sua presença. E o facto de cada uma destas personagens não estarem directamente relacionadas na história faz com que com o passar das cenas nos esqueçamos dela, deixando de existir personagens principais. Alguns destes actores têm tão poucas cenas que a sua presença chega a parecer um cameo (Gwineth Paltrow). A única personagem que escapa desta óptica talvez seja a de Laurence Fishburn que acaba tendo um papel mais central que outras. Por vezes lembra-nos Crash ou Babel, ou mesmo Traffic, mas graças a Deus (ou alguém) Contagion é muito melhor que isso, tal como Soderbergh é muito melhor que Iñarritu mas isso já são outras rosas.

"Contagion" não manipula (muito), apenas expõe. Observamos o expandir do vírus e como os governos, a imprensa e a população geral lida com ele, os boatos que se espalham, as verdades escondidas. E está feito de forma interessante, realista e bem executada. Emocionalmente ficamos indiferentes depois de ver o filme, embora informativamente fiquemos alerta. É um filme metódico, frio, é quase um filme biológico/científico. Aqui Soderbergh foge àquilo que habitua o espectador, negando um filme apocalíptico fácil, com imagens de destruição e calamidade global. Não. Soderbergh opta pela apatia do vírus, transpondo-a para a forma como executa o filme, e nisso acerta na mouche. Parece que nunca saímos dum laboratório de química, o que surpreendentemente se revelou interessante e intenso, nunca se deixando cair no enredo fácil.

"Contagion" é uma boa aposta para esta altura do ano em que não passam grandes filmes nas salas e decerto não irá desiludir. Também não é propriamente um filme de entretenimento (algumas pessoas chegaram a sair da sala) mas também a Tagline "Nada se espalha tão depressa como Medo" não traduz nem pouco mais ou menos aquilo que se irá ver. Vale a pena sem dúvida.

 

Publicada a 17-10-2011 por David Bernardino