Cinecartaz

Fernando Oliveira

A árvore da vida

ESCRITO NA ALTURA DA ESTREIA:
Um filme que na forma é belíssimo, mas que se perde por causa do imenso pretensiosismo intelectual de Terrence Malick.
Para quem é ateu como eu, o que é mais difícil de aceitar na religião é o conceito de fé. Acreditar que tudo o que nos acontece, o bom e mau, faz parte de um plano maior de Deus, que nós não temos de compreender nem questionar. Acreditar que as nossas vidas não dependem como que de um jogo de dados com que Deus brinca com as nossas vidas de uma forma arbitrária e estupidamente cruel. Acreditar num Bem absoluto, mesmo quando este nos parece de um horror absurdo. É essa questão sobre o sagrado e a fé que Malick faz neste seu filme, apenas o quinto em quarenta anos: “A árvore da vida”.
Esta é a história de uma família americana que é atingida pela tragédia, a morte de um dos seus três filhos aos dezanove anos. A partir deste acontecimento os pensamentos daquela mãe começam a questionar o porquê desta decisão de Deus. Malick recua a narrativa ao tempo em que os três filhos eram crianças, e adianta a narrativa ao tempo presente onde um dos irmãos começa a questionar a sua memória sobre quando começou a duvidar da justeza de Deus. Malick com uma mestria única na forma como manipula o que nos mostra, conjuga as duvidas dos personagens com a transferência do sagrado para a Natureza, tudo o que Deus criou, (o que é recorrente em todos os seus filmes) e, de um momento para o outro, inicia-se uma enorme “sinfonia” de imagens com que Malick nos conta a história da criação do Universo, da Terra, e da Vida, uma mistura de sons e acontecimentos que são tremendamente emocionantes. Depois a história concentra-se nas memórias de Jack (o irmão que recorda no presente), a sua relação com o pai severo, a mãe, os irmãos, e tudo o que o rodeia; Malick transfere o questionar da Fé que a aquela Família iria experimentar anos mais tarde, para o questionar da autoridade paternal, e maternal, que Jack vai experimentar ao mesmo tempo que questiona a fé em Deus quando percebe a arbitrariedade das tragédias que vai observando. Até aqui o filme é magnífico.
Mas depois aquele final de difícil explicação, e de um pretensiosismo e arrogância inaceitáveis levam o filme para o lado de uma espécie de “filosofia new age” que é absolutamente ridícula.
Uma pena.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 18-02-2021 por Fernando Oliveira