Cinecartaz

Joana Queiroz

Crítica a Splice - Mutante

A história do filme, apesar de ter algumas coisas bizarras, é inegavelmente interessante e mantém-nos colados ao ecrã até ao fim do filme. É um filme com uma temática estimulante, pelo menos para mim, que sou uma rapariguinha da Ciência e gosto sempre de ver estes assuntos abordados. A prática de clonagem e o “brincar de Deus” são questões morais levantadas. Splice também propõe uma reflexão moral da metáfora da criação: Adão e Eva, respectivamente as personagens interpretadas por Adrien Brody e Sarah Poley, que geram uma nova espécie, Dren. Esta premissa está muito boa e é inteligente, já a execução é muito pobre. Vincenzo Natali não conseguiu nada de brilhante aqui, tudo poderia ser excepcionalmente melhor. O filme tem um ritmo médio, ao início tudo flui rapidamente e mal vemos o tempo passar. No entanto, depois parece que estagna e que nunca mais acaba. Se esperam muita acção poderão ficar desiludidos. Admito que estava à espera que a premissa se desenrolasse de outra maneira. Seria mais interessante, apesar de cliché, se Dren escapasse da quinta onde estava e espalhasse um pouco de terror na comunidade. Não tem quase nenhuma reviravolta, apenas um último twist final e bastante previsível; desta maneira, poderá haver cenas em que ficarão entediados, pelo menos os mais exigentes por sangue e acção. Um ponto positivo que podemos retirar daqui é que há alguma concentração no diálogo, que de certa maneira não está mau e é inteligente, é há desenvolvimento das personagens. A personagem de Elsa tem uma evolução excepcional, e apesar de Dren ser o objecto de atenção é Elsa que é a alma do filme. A sua personalidade e acções influenciam todos os acontecimentos, e é intrigante observar a evolução da sua relação com Dren. Adrien Brody não está brilhante neste filme, nem Sarah Polley. Já Delphine Chénac faz um trabalho notável. A fotografia está muito boa, não conseguimos tirar os olhos do ecrã. Os efeitos estão muito bem conseguidos e intrigantes, principalmente na criatura Dren, adorei a evolução. Existe uma certa dualidade nesta estranha mas adorável criatura: por um lado, o seu olhar meigo quase faz-nos sentir compaixão por ela, e por outro as suas estranhas asas, acções macabras e sons produzidos causam um certo desdém. A aparência de Dren está muito bem conseguida, aliada ao seu figurino que a tornam ainda mais humana, mas não inteiramente. Talvez se Guillerme Del Toro tivesse realizado ao invés de ter produzido, o resultado seria outro. Splice recebeu críticas maioritariamente negativas, mas creio que devem criar uma opinião própria e irem ver. Eu não pertenço à maioria, até gostei do filme, mas sou um bocadinho suspeita. Consegue entreter de diversas maneiras paradoxais: faz rir e chorar, faz vomitar e perturba, mantém o interesse e promove o aborrecimento, apanham um susto ou não… enfim, muitos pratos no menu, que depois têm duas saídas: ou gostam ou não gostam. www.depoisdocinema.blogspot.com

Publicada a 03-03-2011 por Joana Queiroz