Cinecartaz

Fernando Oliveira

A rapariga do capuz vermelho

Logo no início do filme, Valerie confessa que é uma rapariga que gosta de desafiar o que lhe está proibido. Logo depois, ainda criança, vimo-la com Peter a afastar-se para o interior da floresta e a caçar um coelho branco, discutem entre eles quem o vai matar. Mais tarde quando pela primeira vez conversa com o Lobisomem ficamos a saber que foi ela… Quase todas as histórias infantis, pelo menos as mais antigas, foram escritas menos para entretenimento, e mais para incutir na educação das crianças valores morais que os educadores julgavam necessários, mas, julgo, a necessidade de contrapor o mal e o bem introduzia nas histórias uma certa perversidade. E é esta perversidade que Catherine Hardwicke se propôs a mostrar nesta muito livre adaptação de “O capuchinho vermelho".
A aldeia onde Valerie e Peter vivem, fica na orla de uma floresta aterrorizada pela existência de um Lobisomem, que, no entanto, mantém uma espécie de tréguas com os seus habitantes. Valerie e Peter estão apaixonados, mas a mãe desta acorda um noivado com Henry, o filho do abastado ferreiro da aldeia; quando resolvem fugir, o Lobisomem volta a atacar…. A realizadora, (que já nos tinha dado dois notáveis filmes: “Treze”, em 2003, sobre as dores da aprendizagem das coisas da vida na adolescência; e “Crepúsculo”, em 2008, excelente a conjugar a magia dos lugares com a irrealidade da história) e o argumentista, David Johnson, a partir deste acontecimento alteram bastante o sentido original do conto.
Há uma excelente mistura entre a cenografia encantatória da aldeia e da floresta e a magia do que nos é contado. Há uma sexualidade contida naquele triângulo amoroso; e há uma sensualidade sentida, mas à espreita, em Valerie (uma excelente Amanda Seyfried). Há uma inteligente utilização dos pormenores importantes da história original: o capuz vermelho, “… Avó, tens uns dentes tão grandes…”; e há muita coisa nova que enriquece, e muito, o óbvio simplismo do original: a personagem principal ser adulta, amante e amada; a presença da Igreja e do obscurantismo próprio da Idade Média; as heranças de sangue…
Não sendo tão fundamental como a adaptação deste mesmo conto que Neil Jordan realizou em 1984, “A companhia dos lobos”, “Red riding hood” é um belo filme romântico contado numa atmosfera de magia e, ao mesmo tempo, de terror. Surreal e onírico, com um final fora deste tempo. E é ao mesmo tempo um filme que acredita nas virtudes de uma boa história, e que acredita que esta é suficiente, não sendo necessário encher o filme de artifícios visuais, para que o que é mostrado na tela seja tão encantador como o eram as histórias infantis.
Muito bom.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 10-05-2020 por Fernando Oliveira