Cinecartaz

Raúl Reis

Regresso ao velho oeste

A ideia de fazer um “remake” de “Indomável”, o filme que deu o seu único Óscar a John Wayne, seria uma aposta alta e difícil para qualquer realizador, mas os irmãos Coen fazem tudo de forma distinta e não temem desafios deste tipo, como já provaram com “Ladykillers”. Joel e Ethan não se atacaram a um “remake” mas a uma adaptação do livro de Charles Portis. “Queremos fazer um filme baseado no livro que seja o mais fiel possível a esta grande obra da literatura americana”, declararam os autores de “Fargo” e de “The Big Lebowski”. A primeira decisão que os dois realizadores e argumentistas tomaram para serem fiéis à novela de Portis foi manter os diálogos tal como eles foram escritos. Nós, europeus, que vamos ver “Indomável” com legendas ou dobrado, não sofremos com isto, mas o público norte-americano queixou-se porque não percebeu muitos dos diálogos. Contudo, o prazer de ver Jeff Bridges debitar as magníficas deixas é impagável, mesmo que não se compreendam todas as palavras. E aqui estamos a citar muitos dos espectadores norte-americanos. “Indomável” não é um filme difícil de se ver, antes pelo contrário. A naturalidade com que todos os actores principais interpretam os seus papéis coloca o espectador à vontade, em território conhecido. O espaço é o do velho Oeste, e a realização dos Coen não quer que o espectador estranhe. Os criativos irmãos que já reinventaram géneros e criaram mesmo o seu, propõem em “Indomável” um “western” de qualidade, direitinho, quadrado e muito agradável de ver. Jeff Bridges, no papel do “marshall” Cogburn faz esquecer o actor. E este é o maior elogio que se lhe pode fazer. Bridges é Cogburn, é gordo, é zarolho e cheira mal. Quando Mattie (Hailee Steinfeld) se encontra com Rooster Cogburn pela primeira vez, dá a impressão que o filme beneficiou de técnicas de integração de odores. Aquele quartinho das traseiras do restaurante chinês cheira mal, cheira a transpiração, a salsichas e a patos lacados. “Indomável” recorda-nos, ou conta-nos pela primeira vez, os pormenores da vida quotidiana dos “cowboys”. Estes homens que viajavam dias, semanas, sem uma muda de roupa, dormindo onde calhasse e comendo feijões enlatados. Se Jeff Bridges convence totalmente, Hailee Steinfeld surpreende e impressiona. No momento das rodagens, a actriz estreante (mas com formação, apesar da sua tenra idade) tinha apenas 13 anos. É em filmes assim que se vê que a abordagem 100% profissional dos cineastas norte-americanos tem vantagens sobre os golpes de sorte de muitos cineastas europeus que apostam em amadores de que nunca mais vamos voltar a ouvir falar. Hailee Steinfeld é um acontecimento e arrisca-se a ganhar um Óscar. Matt Damon completa o principal trio de actores num papel que lhe vai valer o respeito daqueles que o catalogaram no registo acção ou romântico. O “ranger” LaBoeuf tem carisma, é divertido, complementa a bravura da jovem Mattie e o fanfarronismo de Rooster Cogburn. O “western” revisitado pelos Coen é um prazer para os olhos e para o coração. “Indomável” é um filme bom, em que tudo funciona bem, tão bem que cedo adivinhamos o fim como nos grandes clássicos do género. Mas fica uma desilusão: onde está a originalidade de Joel e Ethan? Resta esperar o próximo trabalho.

Publicada a 22-02-2011 por Raúl Reis