Cinecartaz

Raúl Reis

Gosto disto

Dizer que o site Facebook mudou o mundo é um exagero, mas é certo que a forma como comunicamos na internet sofreu alterações impossíveis de prever antes de Mark Zuckerberg ter colocado à disposição dos internautas o domínio facebook.com. A internet participativa já era uma realidade antes do Facebook. Os blogues foram umas das faces mais visíveis desse movimento que consagrou a internet como um espaço de palavra para todos os utilizadores e não só para os que conheciam os segredos da informática. O YouTube conseguiu dar o poder a todos os utilizadores da rede para exporem as suas imagens ou para, simplesmente, se exporem. Justificadamente, a revista Time colocou o YouTube na primeira página, dizendo, no final de 2006, que o homem do ano éramos todos nós, os internautas. O Facebook foi mais longe porque colocou os utilizadores da internet verdadeiramente em rede e a interagirem. “A Rede Social” conta como é que tudo isso começou. Fazer um filme sobre um programador informático muito inteligente mas com limitados dotes sociais parece difícil. Contar a história de um jovem sentado diante de um PC a programar páginas de código para criar um site poderia ser considerado suicídio cinematográfico mas David Fincher prova o contrário. “A Rede Social” é um filme tão inteligente como a sua personagem central: Mark Zuckerberg. Durante cerca de duas horas assistimos a diálogos fascinantes e rápidos que deixam os espectadores colados ao assento como se estivessem a assistir a um filme de acção. Ao que parece, Zuckerberg, o criador do Facebook é assim: uma pessoa extremamente inteligente mas com dificuldades em relacionar-se com os seus próximos. A ideia que acabou por estar na origem do actual Facebook surge na sequência de um encontro com uma rapariga. Zuckerberg espalha-se ao comprido com a sua conversa deslocada e inabitual que deixa a jovem irritada. Zuckerberg volta para o seu quarto com sede de vingança e lança um site com fotos das colegas de universidade em que toda a gente pode votar nas mais bonitas. Para conseguir isso, o jovem prodígio tem de “hacker” vários sites e acaba por fazer “crashar” os servidores do campus universitário. O site pai do Facebook chamava-se “The Harvard Connection” e foi um sucesso enorme entre os estudantes daquela universidade. O caminho até ao Facebook tal como o conhecemos hoje em dia não é curto. Passa por tribunais e por encontros determinantes na vida da personagem principal, que vão desde as pessoas que contribuíram financeiramente para o projecto assim como aqueles que o transformaram numa verdadeira iniciativa empresarial. Numa época em que se vêm tantos filmes com diálogos pobres e limitados, é um prazer seguir “A Rede Social” com atenção: os textos fazem lembrar as tiradas de Groucho Marx na rapidez com que são debitados. Jesse Eisenberg, no papel de Zuckerberg consegue um ritmo verbal de metralhadora e define muitas vezes a velocidade da acção do filme. Justin Timberlake, no papel do fundador da Plaxo, Sean Parker, oferece a este trabalho de David Fincher o seu lado “fashion”.“A Rede Social” é um filme excelente no qual se nota a mão de mestre de David Fincher, mas sobretudo porque consegue levar-nos pelo mundo da informática, da finança, e das confusões da internet sem nunca nos perdermos. Mais: percebemos tudo tão bem que não queremos perder pitada. O espectador é levado pela mão até ao final numa viagem original e interessante. Se isto fosse o Facebook eu carregava na mãozinha com o polegar levantado para dizer que gosto disto.

Publicada a 30-10-2010 por Raúl Reis