Cinecartaz

Raúl Reis

Água potável

Sempre que aparece mais um filme apocalíptico, uma história sobre o fim do mundo, a minha primeira reacção é de dúvida. Nos últimos dois anos eles são tantos que começam a cansar. A última visita de um filme assim aos ecrãs luxemburgueses foi o excelente “The Road”. Mais uma vez tive de engolir as minhas inquietudes e admitir que “The Road” fundia várias obras do género, acrescentando-lhe interpretações brilhantes dos principais actores e um enredo complexo e de grande força psicológica. “The Book of Eli”, tal como “The Road”, não se situa num futuro muito distante – o que ajuda à credibilidade da história. Um homem viaja através de ruínas daquilo que em tempo foram ruas norte-americanas. As cidades estão vazias, a estradas destruídas e fica-se com a impressão de que tudo ardeu. A civilização, tal como a conhecemos hoje, desapareceu e quem detém o poder são “gangs” que disparam primeiro e perguntam depois. A personagem que acompanhamos é Eli (Denzel Washington), um guerreiro que procura a paz. Ele defronta quem lhe aparece pelo caminho para defender um ideal. Eli vai cruzar Carnegie (Gary Oldman), um homem que controla uma região e um grupo de bandidos. A principal actividades desta banda armada é aumentarem o seu poder e obterem o máximo de produtos e, sobretudo, água, que é uma raridade... Eli caminha para oeste. Não se sabe bem porquê, mas ele quer chegar ao oeste, acompanhado do seu livro que lê incessantemente. Tal como o pai e o filho de “The Road” procuravam o caminho para o sul, Eli só se preocupa com a sua romagem que o levará até na direcção de um ponto cardeal. Eli cruza Solara (Mila Kunis), a filha adoptiva de Carnegie. A jovem vai ter um efeito estranho no guerreiro que descobre que, afinal, é um ser humano e não só um “missionário” com um único objectivo. Solara começa a descobrir que vive uma espécie de escravidão nas mãos do seu pai adoptivo; Carnegie utiliza-a para manipular os seus homens e manter o sensível equilíbrio que lhe dá o poder. A força do filme dos irmãos Hughes (Albert e Allen) está nas subtis frases que aparecem aqui e ali ou nas atitudes de algumas personagens. Os actores – de qualidade e aparentemente motivados – contribuem muito para tornar “The Book of Eli” mais interessante. Mas o filme tem também defeitos: as cenas de acção exageradas em que Eli ou outras personagens têm força quase sobrenatural. Eli passeia-se de faca na mão e quase a ninguém lhe manda um tiro; a ideia ocorre aos maus da fita só lá para o final...

Publicada a 25-02-2010 por Raúl Reis