Cinecartaz

Raúl Reis

Bon appétit!

O filme de Nora Ephron começa com duas declarações curiosas. A primeira é que “Julie & Julia” se inspira em dois livros e a segunda é que os factos são reais. Se a derradeira situação é comum, o facto de um filme se inspirar em duas obras literárias é, por seu lado, bastante original. Na realidade, os dois livros não são grandes obras literárias, trata-se de um blogue e um livro de receitas. Para nós, que não somos norte-americanos, Julia Childs é uma ilustre desconhecida. Mas nos Estados Unidos, esta senhora é mais ou menos o equivalente de Maria de Lourdes Modesto, misturada com Filipa Vacondeus e o chefe Silva. Todos numa só pessoa. Julia Childs era mulher de um diplomata estado-unidense que adorava comer. Viveu em França onde descobriu o prazer da gastronomia do país vizinho. De simples apreciadora, a senhora Childs passou a autora do mais conhecido livro de receitas sobre cozinha francesa em toda a História americana, intitulado Mastering the Art of French Cooking, e que, apesar de ter sido publicado nos anos 40, continua a ser uma referência. Muito mais tarde, em 2002, Julie Powell, era ainda fã de Julia Childs. Admirava tanto a obra da cozinheira que decidiu fazer todas as receitas do livro da cozinheira durante um ano. Para se motivar, Julie vai criar um blogue onde conta as suas dificuldades e o prazer que lhe dá cozinhar “sob influência”, como ela diz, da grande Julia Childs. Júlia Childs é interpretada por Meryl Streep. A actriz parece que ganhou vinte centímetros para interpretar a cozinheira americana que media 1m88. Meryl Streep é perfeita no papel de uma “mulher de armas”. Determinada, expansiva, por vezes dura, Julia Childs era uma mulher que apagava tudo à sua volta. Streep consegue transmitir perfeitamente essa imagem e reproduz mesmo o sotaque original de Júlia. A Julie, autora do blogue, é também uma mulher decidida. Apesar de vacilar algumas vezes, a jovem não desiste do seu projecto de realizar as 524 receitas do livro “Mastering the Art of French Cooking”. O seu marido aguenta as dificuldades, aliás como o fazia o marido de Júlia Childs 50 anos antes. Os homens saem aliás muito maltratados de “Julie & Julia”. Todos eles são apagados, “bananas” ou então parvos. A forma como a realizadora Nora Ephron constrói o seu filme, criando paralelismo entre as vidas das duas mulheres, é a razão pela qual “Julie & Julia” se torna num filme ritmado e com acrescido interesse. Para o público norte-americano o prazer será maior, mas descobrir esta fabulosa personagem que é Julia Childs é, por si só, motivo suficiente para não perder este filme. E como dizia a cozinheira nas suas emissões na televisão americana com um sotaque francês muito mau: “bon appétit!”.

Publicada a 22-11-2009 por Raúl Reis