Cinecartaz

Fernando Oliveira

Milk

ESCRITO NA ALTURA DA ESTREIA: Gus Van Sant é um dos mais singulares realizadores contemporâneos: são exemplares, por exemplo, a sua abordagem narrativa e formal em “Elephant” (um dos filmes maiores deste século XXI) ou, num plano quase oposto, a radicalidade do seu olhar e da sua proposta em “Psico”, “cópia” (será?) do clássico de Hitchcock.
Este biopic de Harvey Milk, primeiro homossexual assumido a ser eleito para um cargo publico nos E.U.A., para o “Board of Supervisors” do município de San Francisco em 1977, e assassinado um ano depois por um ex-colega é, para o escrever de uma forma simples, um filme magnifico e, ao mesmo tempo, um envolvente documento de uma época, usando com frequência imagens de arquivo, e uma extraordinária ficção sobre o crescimento politico do personagem principal, um desempenho soberbo de Sean Penn.
Aparentemente mais mainstream que os filmes anteriores do realizador penso que há, no entanto, um olhar de tal maneira particular do realizador, que o torna muito mais próximo do acima referido filme de 2003, por exemplo, do que há primeira vista parece: Nesse filme a forma como a câmara seguia os personagens, os abandonava, para os ir novamente procurar mais à frente, ou atrás na narrativa, criava nos espectadores um efeito de aproximação aos personagens, que funcionava como se estivéssemos a viver os acontecimentos, como se fôssemos nós que andássemos por aqueles corredores.
Neste “Milk” há uma abordagem de tal maneira carinhosa ao personagem, na maneira como filma os seus gestos, ou como descreve os seus sentimentos pelos amantes, como mostra a sua entrega à luta, que esta relação “pessoal” entre o realizador e o seu personagem acaba por extravasar para fora do filme, que este passa a ser, também, uma história de amor e um filme extraordinariamente emocional: quem é que não sente um nó na garganta e um aperto no coração quando, no fim, a câmara deixa as personagens de Scott e Anne e filma a enorme manifestação de pesar na Avenida.
Conjugado com a arte do realizador, tudo isto só é possível por causa da enorme qualidade do trabalho de Sean Penn, que fazem de “Milk” um dos filmes mais importantes dos últimos tempos.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 20-02-2021 por Fernando Oliveira