Walt Kowalski (Clint Eastwood) acaba de perder a esposa. Foi a mulher que mais amou em toda a sua vida, considerando-a a mais bela mulher que jamais encontrou. Walt tem dois filhos que pouco se parecem com ele: são materialistas, aparentemente vazios e desinteressantes. Para Walt, os seus filhos e netos são uns falhados, apesar de terem uma vida confortável e que o comum dos mortais poderia considerar bem-sucedida.
Walt vê as coisas de forma diferente. Ele acredita em princípios, em convenções e na magia que qualquer homem pode operar desde que disponha de fita-cola industrial e uma lata de WD40.
Walt é racista. Cresceu no centro dos Estados Unidos, no Midland, lá onde ser branco era inevitável. Os amigos de Walt são todos caucasianos e distinguem-se pela origem nacional: italianos, irlandeses, polacos. Walt é um “polack”, que deve ter um antepassado – se calhar não muito antigo – proveniente da Europa central, mas Walt não tem dúvidas: é 100% americano.
Walt trabalhou na fábrica da Ford e agora está reformado. Choca-o que os seus filhos possam comprar Toyotas e Hondas. “É assim tão difícil comprar um carro americano?”, pergunta-se Walt entre dois rugidos. Walt montou a coluna de direcção do seu próprio carro quando trabalhava na Ford.
Walt ruge e grunhe quando não gosta de qualquer coisa. Aqueles que o rodeiam ficam assustados e evitam a sua companhia. Walt parece fazer de propósito.
Walt só quer que o deixem em paz, que lhe permitem viver a vida como ele a concebe: sentado na sua varanda, a beber uma cerveja americana enquanto corta a relva e dá mais uma polidela ao seu Ford Gran Torino.
Walt vive num bairro maioritariamente asiático. Os seus vizinhos são Hmongs. Ironia do destino, pois o evento mais marcante da vida de Walt foi a sua passagem pela guerra da Coreia, de onde lhe ficou certamente a aspereza e o olher austero. Todos os dias Walt sofre com a lembrança dos inimigos que matou nessa guerra há mais de 50 anos.
Walt está doente, mas não se queixa. Walt é um homem como já não os há. Walt não é racista. Walt está fora do seu tempo. Walt tem dificuldades em aceitar o mundo que o rodeia e que muda rapidamente. “Porque é que vocês, os olhos-em-bico, vieram para aqui, um sítio onde neva durante seis meses?”, pergunta-se Walt, que acreditava que o seu último reduto era inexpugnável.
Walt respeita o carácter, a personalidade. Tem os seus princípios e sempre viveu de acordo com eles, exceptuando duas escorregadelas que o corroem e fazem sofrer. Walt está muito doente, mas recomeçou a sorrir há pouco tempo. Walt afinal é um homem como os outros. Se calhar até é um homem melhor que muitos outros.
Para o conhecer veja “Gran Torino”, um filme excelente que Clint Eastwood assina duplamente como realizador e protagonista. Clint é Walt e Walt é Clint. E Walt é um bocadinho de todos nós. É por isso que “Gran Torino” é obrigatório.
Raúl Reis