Cinecartaz

Fernando Oliveira

Este país não é para velhos

“Vale mais cair em graça do que ser engraçado”, é um ditado popular que define muito bem a relação do cinema dos irmãos Coen com os cinéfilos. Depois de em meados dos anos oitenta nos terem dado esses dois monumentos de negro nonsense, que foram “Blood simple” e “Miller`s crossing”, os Coen realizaram uma quantidade de filmes em que os maneirismos formais, fazer de cada filme um programa, substituíram o prazer de fazer cinema. “Fargo”, em 1996, foi a excepção. Mas a verdade é que a ideia feita de uma certa qualidade de autor e de espírito de independência sempre fizeram que o seu cinema fosse demasiado valorizado em razão à sua verdadeira qualidade.
Este “No country for old men”, baseado numa novela de Cormac McCarthy, foi por isso mesmo uma verdadeira surpresa, onde os Coen perderam as suas manias e realizaram uma excelente espécie de western moderno sobre a falta de racionalidade da violência (depois voltariam ao mesmo, com a excepção de “True grit”).
Os “homens velhos” do título são aqueles que cresceram baseando a sua vida em certos limites; bons ou não, não é isso que interessa; e onde havia a capacidade de explicar os porquês das coisas, e que se descobrem num mundo onde a falta de razão e de âncoras é o máximo denominador comum. O xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones) é um exemplo perfeito desses homens, que não compreende a violência que acontece à sua volta, mas que tenta corresponder com o saber doutros tempos. Sem hipóteses. A personagem principal não é Llewelyn Moss (Josh Brolin), outro perdido neste tempo, mas que ainda não sabe que o é. A personagem principal do filme é Anton Chigurgh, extraordinário desempenho de Javier Bardem, nome impossível para uma das mais tenebrosas personagens que o cinema moderno nos deu. Ele mata sem razão, apenas porque lhe apetece, sem causas, por vezes cedendo ao fortuito do “cara ou coroa”, imagem mais que perfeita da violência gratuita nos tempos de hoje.
E é magnífica a forma como os Coen filmam as paisagens rurais e urbanas do Texas como se de um poema (negríssimo poema) visual se tratasse. Imagens sujas e áridas, inóspitas e solitárias para os personagens, onde a personagem de Bardem, Chigurgh se move como um imparável anjo da morte. Além da magnífica fotografia de Roger Deakins, tenho de destacar o extraordinário trabalho com o som e o silêncio de Craig Berkey. Nos actores, para além dos três referidos é de referir também o desempenho de Kelly McDonald, numa personagem que é tão frágil que dói ao vê-la.
Um dos melhores filmes de 2007.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot. pt")

Publicada a 02-04-2021 por Fernando Oliveira