Cinecartaz

Jorge Augusto

Mon Oncle

Em "Mon Oncle", terceira longa-metragem realizada, Jaques Tatischeff apresenta-nos novamente a sua personagem mais famigerada - o burlesco Monsieur Hulot. Reconhecido pela sua gabardine, chapéu e cachimbo, Hulot vive uma nova aventura tecnológica, oferecendo-nos um sem número de gags cómicos ao melhor estilo de Buster Keaton ou Charlie Chaplin. Sempre com o humor como base, Tati consegue criar excelentes sátiras à sociedade, como é este particular caso, onde a classe dos novos-ricos é altamente atingida.

Neste filme datado de 1958, facilmente salta à vista o jogo dicotómico que Tati constrói, opondo a simplicidade da (sua) vida à mais sofisticada e tecnológica forma de viver (da sua irmã e cunhado). De um lado, tudo o que a personagem preza: o sincero bom-dia com que presenteia os vizinhos, o chilrear de um pássaro ao sol, a amizade com o seu sobrinho. Do outro lado, tudo a que o casal Arpel parece dar importância: o intencional cumprimento que a sua irmã oferece aos curiosos (de forma a que eles possam admirar a sua novíssima casa...), as festas que organiza no seu jardim (a sequência da Garden Party é das mais hilariantes!), os mais variados utensílios que possuem na casa, todos com uma função bastante específica.

É neste contexto que a Villa Arpel, moradia do casal, se torna uma personagem essencial no filme, e, através dela, Tati personifica o modo de estar desta classe social: quanto mais se tiver melhor, quanto mais se mostrar melhor. As fabulosas cenas da fonte-peixe do jardim, cujo repuxo apenas é ligado quando alguém (importante) toca à campainha, espelham o retrato de uma sociedade que vive para as aparências. Tudo nesta casa faz confusão a Hulot, desde o singular abrir automático do portão, às extravagantes cadeiras. Contudo, este sentimento é recíproco, e a casa parece também não sentir muita empatia por Hulot, dada a forma desastrada dele se comportar dentro daquelas quatro paredes (fenomenal apontamento em que o Monsieur entra à noite no jardim para aparar umas plantas, e o casal põe-se a espreitar, cada um numa janela redonda da casa, dando a ilusão de serem os olhos da própria casa que seguem as peripécias do terno tio).

Mas, como já foi referido, "Mon Oncle" é também puro e inocente. Ao longo de toda a película, vão surgindo sequências de cenas em que podemos observar as ingénuas brincadeiras das crianças. Talvez o maior ataque de riso que temos, seja provocado, precisamente, devido a uma extraordinária cena, em que um grupo de meninos escondidos atrás de um muro, se regozija a distrair (com o barulho dos seus assobios) as pessoas que vão passando, de modo a que estas batam contra um poste.

É deste modo que a ligação entre Hulot e o seu sobrinho, Gérard Arpel, se vai tornando cada vez mais forte: apesar de viver num bairro sem mordomias como o seu, o tio vive uma vida bem menos monótona que a sua e dos seus pais, e isso fascina-o e leva-o a admirar Hulot (em detrimento do seu pai).

Um factor que não podemos deixar passar em claro, é a banda sonora que acompanha as imagens. Quase desprovido de diálogos, temos a felicidade de poder ouvir uma música que nos aquece o coração e nos acompanha durante grande parte do filme. Além disso, somos constantemente confrontados com um conjunto de sons reais, que tornam ainda mais autêntica esta obra-prima: o chilrar dos passáros, o assobio das crianças, o calçado a bater no chão, a água a sair em repuxo da fonte...

"Mon Oncle" continua a ser umas das mais maravilhosas comédias já feitas, com um tom alegre e um humor refinado. Infelizmente, a sua temática é, ainda hoje, bastante actual.

Afinal de contas, é o simples assobio do pai que vai conquistar o seu filho.

Publicada a 16-06-2011 por Jorge Augusto