Cinecartaz

Fernando Oliveira

Psico

Em 1960, ano de “Psico”, estreou também “Peeping Tom” de Michael Powell. Parece-me serem ambos filmes que demonstram de forma notável a associação entre o ver, ou fazer, Cinema e as perversões do olhar, o voyeurismo. Hitchcock andou cinquenta anos a fazer-nos sentir que o acto de olhar um filme numa sala escura tem tudo de fascinante, mas também muito de fantasmas que associamos a prazeres mais ou menos culposos (o extremo seria o cinema pornográfico, quando ainda se podia ver em sala). Há uma ideia que sempre tenho quando vejo um ou o outro, que também será de alguma forma perversa, que é associar a muito citada procura da perfeição de Hitchcock ao filmar a cena do chuveiro, com as razões porque o personagem principal do filme de Powell assassinava as mulheres daquela maneira: de gravar em película a cena perfeita.
Ora “Psico” será o filme em que mais nitidamente os tais fantasmas da mente de Hitchcock se conjugam de forma soberba com a sua extraordinária capacidade de manipular os seus filmes de forma a intervirem nos fantasmas dos espectadores. É assim desde que nos faz entrar naquele quarto de um hotel rasca de Phoenix e nos faz assistir à intimidade do casal de amantes; é a forma como não nos prepara para a decisão de Marion; é a quase palpável tensão da viagem dela até ao Motel Bates, com a música de Herrmann a fazer-nos sentir ainda mais neurótica a viagem da personagem; e, claro, a mais que conhecida cena do chuveiro; e a espantosa cena em que Norman limpa a cabana onde ocorreu o assassínio em que demonstra uma incrédula sinceridade. E quais são os fantasmas de Hitchcock? A culpa, esta é mesmo a única razão que faz avançar a narrativa deste filme; o espreitar pelo buraco da fechadura (na parede, no caso deste filme), a intimidade dos outros; e o mistério da feminilidade, da sexualidade da mulher – em quase todos os seus filmes parece que a câmara quase que “devora”, viola será talvez mais correcto, as personagens femininas numa procura de percebê-las, e perante essa impossibilidade, Hitchcock quase sempre as “castiga”. Aqui, em “Psico”, mesmo depois do arrependimento….
Formalmente é um filme perfeito: há o vertiginoso trabalho da cena do chuveiro, há o espantoso trabalho de Hitchcock a mostrar que as imagens dos filmes nunca são uma representação do real, mas sim uma intervenção do realizador sobre aquilo que é filmado. A volúpia do olhar, ou o realizador que vê como e donde quer (há aquela cena no quarto da mãe de Norman, quando Lila, a irmã de Marion, se assusta com a sua imagem no espelho…). Enfim, o enorme prazer de ver um dos grandes realizadores de Cinema a criar num dos picos da sua arte.
No entanto, sendo um filme que gosto muito, sou incapaz de o amar como outros filmes do mestre. Nota-se demasiado a mente acima do coração na criação dos efeitos dramáticos, e aquela longa e aborrecida explicação psicanalítica do final não pega. Em 1960, “Peeping Tom” é o meu filme preferido, “Psico” está a quase fora dos dez mais – como curiosidade pelo meio estão por esta ordem, “L`avventura”, “The apartment”, “A bout de souffle”, “Jungfrukällan”, “Wild river”, “Onna ga kaidan wo agaru toki”, “Rocco ei suoi fratelli”, e “Let´s make love” – mas não deixa de ser um filme importantíssimo, até pelas liberdades narrativas que trouxe ao cinema americano.
(em"oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 03-04-2020 por Fernando Oliveira