Cinecartaz

Fernando Oliveira

Ran

Lembro-me que quando este filme estreou em Portugal em 1986, a crítica usou e abusou de superlativos adjectivos elogiosos sobre ele. Houve excepções, mas foram muito poucas.
E este filme inspirado num dos textos fundamentais da literatura ocidental, o “Rei Lear” de Shakespeare, que Kurosawa inscreveu nas ambiências lendárias e imagéticas da cultura japonesa, e aonde acrescentou uma personagem feminina fundamental para o desenvolvimento da história, merece tais elogios?
Já na altura achei que não, e trinta anos depois continuo a sentir o mesmo. É claro para mim que continuo a não conseguir ver, e sentir, aquilo foi escrito na altura. É verdade que é um filme fascinado pela violência, mas é a violência física, o sangue, a fúria e a crueldade, muito mais que a violência definida na solidão absoluta que brota do poder. Mais que uma reflexão sobre o poder e a condição dos homens e das mulheres presos ao seu exercício, a Kurosawa parece interessar muito mais as coreografias onde encena as batalhas e as lutas. Também a muito elogiada beleza pictórica do filme, parece-me que sufoca o filme, e faz-me sentir que muita vezes é mais uma tentativa de esconder um vazio de ideias, um cinema que se esgota no estilo. Um cinema sem emoção.
Enfim, um filme talvez bonito, mas que me aborrece.
(em "oceuoinfernoeodesejo.blogspot.pt")

Publicada a 29-07-2019 por Fernando Oliveira