Cinecartaz

Nazaré

Reiniciando o sistema com argumentos espectaculares

Muito movimento tem este filme! Uma história algo longa (mais de duas horas) que não se arrasta, antes nos dá um fartote de espectáculo a todos os níveis. Excepto talvez na tecnologia, menos em evidência e ainda bem (transferências "wireless", diagnósticos online, e pouco mais - é uma área tão volátil que é fácil tornar-se ridículo já quando sair em DVD, quanto mais...). É claro que o argumento tem de ser superficial, apesar das engenhosas voltas e reviravoltas que desconfio terem o selo de Paul Haggis argumentista; e que Bond e os supervilões continuam a ser sobrehumanos; e que as Bond Girls (Eva Green e Caterine Murino) são lindas; e que o clima é muito West-cêntrico, no que aos poucos se vai tornando algo anacrónico. Mas o "rebooting" da série, através dum actor (Daniel Craig) o mais possível contrastante com o antecessor imediato Pierce Brosnan, é muito bem sucedido, sem dúvida.

O físico atlético condiz à perfeição com as correrias e pancadarias em que se envolve; não deixa de ter pontaria com armas, mas é mesmo numa de "full-contact" que Bond resolve muitos dos seus conflitos com os mauzões. São de antologia as cenas com supervilões "afro" (a perseguição acrobática nas Bahamas, o duelo na escada de serviço) e a do impedimento do atentado. E isto, a par da cena da tortura, mostra-nos um Bond que dá mas também leva que se farta; não é coisa para os estilizados Roger Moore ou Pierce Brosnan, de facto.

Há quem diga que a descrição de Ian Fleming se aproxima mais deste Bond brigão, ao qual o "smoking" não fica mal mas não é uma segunda pele. Aliás, se há aspecto deste filme que não funciona tão bem, a meu ver, é o talento para as cartas: uma mente matemática não costuma vir na mesma encomenda que um físico preparado para a porrada (uma incongruência semelhante viu-se no Hugh Jackman de "Swordfish").

O restante "cast" é excelente, com destaque para Eva Green (perfeita como contabilista, mas abusam um bocado do "look" anos 20 para ela, não é que fique mal mas...) e Mads Mikkelsen (o vilão das lágrimas de sangue). Falando mais propriamente de Craig, ele confirma as suas boas qualidades de actor, especialmente na sua expressão oral e também no domínio da expressão facial, aparte o recorte físico. Mas, antes de considerar-se a questão de ser louro de olhos claros (Roger Moore também é, mas ninguém se quer lembrar disso quando criticam a escolha de Craig), é o facies tipo eslavo que mais provoca alguma perplexidade com ele, se bem que o seu "pedigree" pessoal seja Brit de gema. Russel Crowe, na minha opinião, teria sido uma escolha bem melhor para este "rebooting", mas talvez boa demais para a saga Bond (e de resto provém das "colonies", experiência cujo precedente com George Lazemby não foi auspicioso).

Contudo, dentro das pretensões de puro entretenimento que a máquina Bond visa, o filme tem uma realização soberba e também por isso resulta bem; e é justo afirmar que no global Craig tem um excelente comportamento, valorizando a fita no seu todo; vale a pena ver como é que na continuação vai evoluir a série, através da caracterização que ele for fazendo nos próximos filmes.

Publicada a 24-12-2006 por Nazaré