Cinecartaz

P.A.

Regresso em grande

Ele não ia voar. Ele ia ter um "Super-Mobile". Ele ia ter um fato transparente que permitiria ver os seus orgãos. Ele ia lutar contra um híbrido de Brainiac e Lex Luthor. Este ia ser o "grande" regresso do Homem de Aço em 1998 pelas mãos de Tim Burton e do produtor Jon Peters. É mau demais, não é ? Pois... Enfim, 19 anos após "Superman IV - The Quest for Peace", e com todas as tentativas falhadas até hoje (que inflacionaram o orçamento para uns obscenos 260 milhões de dólares), é com grande alívio e satisfação que me orgulho de ver que o Super-Homem chegou em grande, novamente, ao cinema. Pegando em elementos dos dois primeiros filmes, dos quais pretende ser uma pseudo-sequela, Bryan Singer e a dupla Michael Dougherty e Dan Harris (argumentistas), criam uma história que embora algo embuída numa certa nostalgia (existe uma grande reverência pelos filmes originais), consegue não só trazer o personagem ao século XXI, mas confere-lhe uma humanidade sem precedentes.

A premissa assenta na ausência de cinco anos do Homem de Aço na busca do seu planeta natal e nas mudanças que isso provocou não só no mundo, mas na mulher que ama, Lois Lane, agora mãe de um filho e comprometida com o filho do chefe do jornal, Richard White. Pelo meio, um recém-libertado Lex Luthor engendra mais uma vez um plano para enriquecer, desta vez com auxílio de tecnologia kryptoniana.

Brandon Routh deixou-me completamente boquiaberto: não fosse o personagem estar tão ligado a Christopher Reeve, eu diria que este é o melhor actor a interpretar o papel. A forma, tal como Reeve, de diferenciar Clark Kent e Super-Homem, através de maneirismos e linguagem corporal, para além das expressões que juntamente com os diálogos reforçam a criação de um personagem de carne e osso, tudo isso cria uma proximidade ao Super-Homem como nunca antes se viu.

Kate Bosworthe também me impressionou pela positiva, conferindo a maturidade esperada ao papel de Lois Lane. O outro grande peso pesado é, óbviamente, Kevin Spacey como Lex Luthor. Aqui, tenho dificuldade em escolher qual a melhor abordagem: esta, com alguns piscares de olho a Gene Hackman, ou a da série "Smallville", com um Lex Luthor interpretado por Michael Rosenbaum, que dá ao personagem uma sensação de ameaça latente e estoicidade. Todavia, creio que a interpretação de Spacey consegue ser talvez mais humana, com alguns interlúdios de humor (que não chegam ao "camp" dos primeiros filmes), pontuados por um certo sadismo e malvadez, característicos do personagem.

Do restante elenco, destaco Sam Huntington como Jimmy Olsen, e, principalmente, James Marsden no papel de Richard White, que é, de certa forma, a versão humana do Super-Homem. E daqui parte um dos conflitos internos mais interessantes do filme: este personagem não é um idiota, como muitas vezes aparecem nos filmes românticos retratados de forma a causar maior empatia com o protagonista. Trata-se de um homem dedicado à sua família, corajoso e de bom coração. É, como disse, a versão humana do Super-Homem e este sabe-o.

Creio que este não vai ser um filme que irá apelar àqueles a que muitas vezes se espera "vender" este tipo de filmes (talvez se sintam mais confortáveis com um "Piratas das Caraíbas 2"). Aqui está um exemplo do que os "blockbusters" de Verão podem e devem ser: filmes de deslumbramento onde não falta uma grande dose de coração e sensibilidade, com personagens bem delineados, cujos conflitos trabalham, numa escala mítica, a própria essência da humanidade. Espero ansiosamente por uma sequela.

Publicada a 15-07-2006 por P.A.