Cinecartaz

Ana Dias

Não gostei

As referências a outros filmes do género são tão explícitas, em "Coisa Ruim", que quase ofuscam qualquer ideia original ou interessante que possa ter surgido da mente dos seus realizadores. A sensação de "déjà-vu" é uma constante, ao longo do filme, o que o torna, lamentavelmente, mau! Nele sobressaem as tentativas de reprodução de algumas das cenas de obras tão marcantes como "A Vila" (em que um aldeão aterrorizado olha para a floresta densa erguida diante de si), "Shining" (com a sua estrada serpenteada, por onde passa uma família citadina rumo a um terrorífico destino), "Os Outros" (em que se ouvem, no interior da casa, os presumíveis passos de alguém que, afinal, está na rua) e "O Sexto Sentido", "Blair Witch Project", etc. (onde ocorrem as aparições de fantasmas de crianças).
Até o massacre de uma família camponesa (provocado por disputas territoriais), que sustenta todo o argumento de "Coisa Ruim", lembra o recente (e não menos interessante) "Sétimo Dia", de Carlos Saura. Conclui-se, assim, que "Coisa Ruim" reduz-se a um simples encaixe das cenas supracitadas em aspectos da realidade portuguesa, como sejam: as casas escuras da Serra, as paisagens húmidas e cerradas, as anciãs com lenços negros, a expressão sinistra e interrogadora dos aldeões, as orações proferidas em murmúrio...

A habilidade dos realizadores na captação e aproveitamento destes elementos, para a criação de uma envolvente adequada ao género é, porém, inegável; o próprio título do filme (feliz, por sinal) alude a essa especificidade portuguesa e só é lamentável o facto de não constar nos discursos dos personagens, provocando, assim, um fosso (injustificado) entre o conceito e a trama.

Contudo, a grande falha desta película prende-se com o seu desfecho precipitado ou a procura apressada de uma solução para o "enigma" que vai sendo "embolado" durante os três primeiros quartos do filme. Pela positiva, destacamos o interesse dos diálogos sobre questões tão sensíveis como a fé e o simbolismo etnográfico, sobrevivendo, assim, a um vulgar erro do cinema português que consiste em subestimar a força da interlocução. Aplausos, ainda, para o elenco esforçado e o desempenho artístico de Manuela Couto.

Publicada a 09-03-2006 por Ana Dias