Cinecartaz

Rita Almeida (http://cinerama.blogs.sapo.pt/)

Engate frustrado...

Já nem me recordo do último filme português que vi (deixei passar o "Alice"...), mas deixei-me seduzir pelo bem montado "trailer" de "Coisa Ruim". Eu não esperava exactamente um filme de terror, mas ser filme de abertura de um Fantasporto traz, certamente, alguma credibilidade e expectativa. Infelizmente, como um daqueles engates frustrados, a primeira impressão não sobreviveu a um olhar mais atento. E se, como eu, ouvirem qualquer referência que se atreva a comparar este filme com "The Village" (M. Night Shyamalan, 2004) ou o excelente "Shallow Grave" (Danny Boyle, 1994), por favor não liguem. "Coisa Ruim" começa com um exorcismo, apresentando-nos a personagem mais importante - o Diabo.

Xavier (Adriano Luz), um biólogo, muda-se de Lisboa com a mulher (Manuela Couto) e os filhos (Sara Carinhas, Afonso Pimentel e João Santos) para uma antiga casa de família no interior do país. Numa aldeia cheia de lendas, esta casa carrega consigo um passado que se vai fazendo notar em torno dos seus novos habitantes.

Seia e Torroselo foram locais de filmagem muito bem escolhidos, o Portugal profundo onde se guardam as mais velhas tradições e superstições. A claustrofobia de um bosque cerrado também é bem aproveitada. O mesmo se pode dizer da casa assombrada, com todo o potencial para causar calafrios, desde o ranger de madeiras aos recantos escuros. Os actores estão, globalmente, bastante bem, apesar de terem que trabalhar com personagens unidimensionais e com soluções que roçam o despropósito (tal é o caso dos avanços menos próprios da personagem de Afonso Pimentel, ficando-se sem perceber se são ou não fundamentados nalgum segredo, neste caso particular a insinuação requer confirmação sob pena de perder todo o sentido).

A fotografia de Victor Estevão é bastante agradável em termos de texturas e há planos realmente muito bem feitos. Aliás, a (pouca) tensão deste filme reside, única e exclusivamente, na forma como está filmado. A montagem de Pedro Ribeiro, no entanto, faz perder muitos dos momentos mais fortes (na primeira visão de um espectro nem me dei conta do que se tinha passado, tal foi a rapidez com que o filme foi cortado). Já para não falar da música de Jorge C., que poderia ter capitalizado muito mais este filme. Eu nem sou dos que defende que o som deve monopolizar os efeitos emocionais, mas não usá-lo de todo, ou usá-lo mal, pode ser um pecado tão grave como o uso excessivo. É o que sucede aqui. O silêncio é tão pouco perturbante como o som que cresce e morre antes sequer de nos ter feito suster a respiração.

A veia jornalística do argumentista Rodrigo Guedes de Carvalho é evidente no trabalho de investigação das superstições que assolam o velho Portugal. Mas concentrá-las todas, de repente, numa mesma aldeia não só retira credibilidade à lenda que marca o filme, como a debitação de cada uma delas soa a lição escolar, sem o mínimo de naturalidade. Apenas para o fim, no cúmulo do desespero, aquelas personagens começam a falar como pessoas reais. Até lá, são elas mesmas uma assombração.

Tive pena que este filme não me tivesse incomodado nem um pouco, não me tivesse feito mexer na cadeira, obrigando o coração a esperar pelo momento seguinte, que não me tivesse feito sentir o peso do receio daquilo que não se explica. Mas se calhar é só o meu mau feitio. Isso ou o ter ficado totalmente insensível depois de ver o perturbante e duríssimo “3... Extremos”.

Ainda assim, se pensar muito, e aparte o declarado moralismo de que as nossas vidas actuais se escondem por trás de "lendas" que nós próprios criamos para nos consolarmos, consigo encontrar uma ideia importante. O desconhecido e o diferente sempre foram e serão motivo de desconfianças. O que uns respondem com superstições, outros respondem com cepticismo. Mas a explicação talvez resida a meio caminho - da mesma forma que a aceitação, que mais do que compreensão é respeito. Nota: 4/10.

Publicada a 28-03-2006 por Rita Almeida (http://cinerama.blogs.sapo.pt/)